Usos do Português

Do autor Odilon Pinto

 

Ao ser convidado pelo jornalista Waldenor Ferreira para assinar uma coluna sobre Língua Portuguesa no jornal “Diário do Sul”, minha primeira preocupação foi não fazer mais um “consultório gramatical”, isto é, não apresentar receitas gramaticais de certo/errado, como vem sendo feito na mídia brasileira há mais de um século.
   A concepção de língua, de seu uso e do seu ensino tem sofrido grandes mudanças, especialmente a partir dos anos 70, com o avanço dos estudos lingüísticos. Essas mudanças já foram encampadas pelo Ministério da Educação, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Português (PCN), para o ensino fundamental e médio, e já vêm servindo de base para os exames vestibulares da grande maioria das universidades e dos concursos públicos mais importantes.
   Tais mudanças, porém, ainda não alcançaram grande parte dos professores, alunos e pais. Por isso, a concepção tradicional de língua, baseada no ensino de nomenclatura da gramática normativa, ainda desfruta de grande prestígio junto à opinião pública e, conseqüentemente, junto à mídia.
Minha proposta, então, é tratar os usos do Português culto formal, especialmente em sua modalidade escrita, a partir da perspectiva dos PCN. Espero, assim, estar prestando um serviço aos leitores e à nossa língua, “última flor do Lácio”.
   O que é mesmo esta coluna sobre os “Usos do Português”? São aulas de gramática normativa? São dicas para quem vai fazer vestibular ou concurso? São curiosidades sobre a língua portuguesa? É mais um “consultório gramatical” onde são resolvidas dúvidas e dificuldades dos leitores sobre o uso “correto” do Português?
   Pode ser um pouco de tudo isso, mas não é nada disso. O que estou tentando fazer aqui é estabelecer um diálogo reflexivo com os leitores sobre os usos do Português, “corretos” ou não. Antes de tudo, pretendo um diálogo, uma conversa. Isso implica que, além de “falar”, através desta coluna, eu também “ouço”, através de comentários que me fazem na rua, de comentários ou de cartas que me escrevem. Portanto, é uma conversa, e não um monólogo.
   Assim iniciei meus escritos no jornal “Diário do Sul”. Agora, parte deles está reunida neste livro. Classifiquei-os em cinco partes: na I parte coloco os artigos que estão relacionados a reflexões lingüísticas e textuais, fugindo da abordagem estritamente frasal da gramática pedagógica; na II parte, juntei os textos que abordam a modalidade escrita da língua; na III parte, reúno os artigos que se referem à Pragmática, aos atos de fala, uma teoria segundo a qual quando dizemos alguma coisa, estamos, simultaneamente, fazendo alguma coisa; na IV parte, coloco textos relacionados com a variedade dialetal no Brasil, especialmente a variedade social, relacionada à vergonhosa concentração de renda brasileira e os preconceitos que ela agrava contra as classes populares; na V parte, estão os artigos que abordam especificamente o ensino escolar de Português, hoje dividido entre uma visão tradicional e uma visão inovadora; na VI parte, coloco os textos que se relacionam com a Análise de Discurso, uma teoria que situa a linguagem no plano histórico-social mais amplo.
   Nem sempre um determinado artigo se encaixa perfeitamente nessa classificação. No entanto, não quis multiplicar as partes desta coletânea para que algumas não fossem constituídas por apenas um ou dois artigos.

Extraído do livro - Introdução

Leia trechos extraídos do livro

Dialeto culto e dialetos populares
Língua e texto