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Linhas Intercaladas Do autor Ariston Caldas |
Finalmente um novo livro de Ariston Caldas (após 34 anos do lançamento de Dissipação). Muito mais especial é o fato de agora Ariston estar lançando o seu primeiro livro de contos. Até então, suas cinco publicações tinham sido na esfera da poesia. Em Linhas Intercaladas, o escritor baiano brinda-nos com uma multiplicidade de personagens tão regionais quanto universais: coronel Bertinho, Verinha, Caboclo, Atanásio, Jacira e Hermengardo, entre tantos, são feições bastante típicas da decantada região cacaueira, figuras com as quais cruzamos rotineiramente e que compõem o Ser do que nos forjamos enquanto povo. Gente miúda, de roça, estrangeiros nas ruas da cidade grande, alheios às decisões superiores, acuados, vendo o mundo de soslaio, almas de um tempo pretérito que entre nós habitam, imperceptíveis.
Tal gente é parceira da prosa de Ariston Caldas, compondo sua sinfonia da palavra. Rostos que entrecortaram sua infância, dos falares de avós a tataravôs de se ouvir falar, instância imantada, perdida na densidade das horas mecânicas que vieram depois. O tempo em Ariston é parmenediano, não se move, espécie de buraco-negro que a tudo acolhe e preserva. Tempo de mocinhas virgens esperando príncipes, de paternalismos absolutos, de mulheres fogosas e matutos ciumentos. Tempo de ambições pigméias e de tipinhos perversos. Tempo como outro qualquer, gente como outra tanta. Mas trata-se de nossa gente, entretanto, situada no nosso espaço, embrenhada de teiús, capivaras e picos-de-jaca.
Ariston nos aprisiona em sua dimensão extática, legando-nos uma obra cheia de lirismo, receptiva e feminina. Em Linhas Intercaladas, a mulher é o destaque. Os homens aparecem aqui e ali, sempre meio impotentes, coadjuvantes obrigatórios, embora coronéis, deputados, padres e patrões. Ler Ariston é perceber quão antigo e duradouro é o matriarcado brasileiro, notadamente o baiano. Terra de homens frouxos e de mulheres decididas, quinhão onde os papéis da ânima e do ânimus funcionam muito bem. Certamente pela presença maciça do negro e de sua androgenia. Talvez por isso, as personagens de Linhas Intercaladas sejam tão sexuadas, exalando todos os hormônios possíveis, não escapando do jogo meninas de doze anos ou velhos de setenta.
Ariston traduz com minúcias e saudosismo essas nuances, esses “lances” quase transparentes de um povo que sempre houve e que nunca pareceu haver, repleto das mesmas paixões shakespeareanas e, contudo, tão maltratada e proscrita, constituindo-se em anti-igleses, no mais amargo que a expressão possa significar. Linhas Intercaladas nos quer dizer também das transformações culturais por que passamos, de sentimentos matutos que se vão encolhendo, de ambições que se vão geometrizando até o absurdo. Ariston Caldas, em Linhas Intercaladas revela-nos o ventre da nossa cidadania, da nossa identidade antropológica, relata-nos em seus contos o SOS de uma tribo em extinção – o homem interiorano, cujas crenças e cismas se esvaem, dando lugar a esse instante urbano, habitat de pequenos-burgueses, parasitas de shopping-centers, classe média medíocre, desenraizada, esquecida do próprio umbigo.Fernando Caldas
Leia o conto extraído do livro: