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Coisas da Vida Do autor Odilon Pinto |
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Coisas da Vida, de Odilon Pinto, co-inaugura a editora Via Litterarum, e, também, a Série Prazer em Ler. Com essa Série, acreditamos estar contribuindo para oportunizar conhecimento, entretenimento e, bom seria, se também pudéssemos estar ampliando e aguçando a sensibilidade e consciência de nossa gente. E isso resume a pretensão desta Editora. O restante é decorrência. Essa, ainda que se situe entre as últimas deste mundo em processo de globalização, difícil e sofrido, em terras grapiúnas, nas terras da outrora Capitania de São Jorge dos Ilhéus, nas terras da saga dos frutos cor de ouro, cantados em prosa e verso mundo afora, nos faz lembrar o rio que corre em minha aldeia de Fernando Pessoa, pois temos a pretensão de cumprir seus desígnios. Há, nesta sublime missão, paixão.
Do Piauí à Bahia, resume a trajetória do professor e escritor Odilon Pinto. Em Coisas da Vida, está impresso o amadurecimento de um homem, consciente de seu lugar e de tempo. A resultante da experiência emerge na sutileza com que o cotidiano ganha beleza e graça literária.
Coisas da Vida é constituído por 204 minicontos, urdidos a partir da textura do cotidiano. Os temas predominantes são as vicissitudes da vida, as cores, as dores, os sabores, os deleites e as agruras do povo, da gente humilde e maltratada pela sorte. Neles, Odilon Pinto explora o inusitado, o cômico, o extraordinário. No fundo, revela a variabilidade da alma humana em sua nobreza e em sua miserabilidade. Alma essa que se manifesta no trivial, no banal, no corriqueiro, no ordinário, que se manifesta na vida como ela é. Isto mesmo, esta ficção remete A Vida Como Ela É, do genial escritor mineiro Nélson Rodrigues, cuja lembrança acaba por ser convocada em Coisas da Vida, não tanto pelos cenários e temas, mas pelo propósito de fundo em desnudar a alma humana. Creio que essa ponte literária se nos apresenta como um filão oportuno de análise e de crítica.
Seu realismo, potencializado pela utilização de topos e situações corriqueiras das terras grapiúnas, de Itabuna, de Ilhéus, de Buerarema, de Itajuípe e de um grande número de outros lugares do mundo engendrado pelo cacau, faz sua ficção quase se confundir com a realidade, ainda que em vários minicontos pareça alcançar o inusitado, o transcendental e o extraordinário, tangenciando o inverossímil, o fantástico. O traço diferenciador desta obra está em ver e descrever a realidade do corriqueiro, do cotidiano, do povo miúdo, pobre e sofrido de sua terra, ora com rudeza e crueza somente superadas pela própria realidade, ora com sutileza e a leveza de um humor que irrompe graciosamente de situações engendradas pela vida, muitas vezes longe de serem cômicas quando vistas na perspectiva de seus infindáveis protagonistas, que se sucedem uns aos outros, de conto em conto. Se fosse possível encerrar Coisas da Vida em um epítome, esse poderia ser o cotidiano elevado ao que esse contém de mais inusitado, singular e, por vezes, extraordinário.
Concluo essa apresentação, propositadamente lacônica, concordando com a convicção do crítico literário norte-americano, Harold Bloom. Diz-nos ele: A apreciação pode expressar juízo, mas o faz sempre com reconhecimento, e, muitas vezes, com admiração e reverência e que as obras produzidas pela imaginação destacam-se pelo fascínio e encanto, pela capacidade de atrair e reter a atenção (Gênio, Objetiva, RJ, 2001. 826p). E isto para não contradizer cada um dos minicontos desta obra, que escondem o intento de seduzir novos leitores, com textos enxutos, cada um bastando-se a si mesmo. A arte deste artífice da palavra parece situar-se precisamente na sua habilidade em dar vida e graça ao que parece condenado ao grotesco, à penúria, ao anonimato e ao esquecimento. Por fim, resgatando uma bela imagem de Platão, temos a confiança de que esses minicontos merecem ser semeados nos jardins literários, mas não apenas para passatempo. E foi o que acabamos de fazer. Descubra também o prazer em lê-los.Agenor Gasparetto
EditorLeia alguns contos presentes no livro: