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Até onde é capaz de chegar o autor de um livro, do interior de um Estado, que tem como uma das atividades econômicas principais o carnaval? Onde a música mais ouvida nas rádios é o Arrocha, que logo será substituída por qualquer coisa como Descendo na boquinha da garrafa ou É o tchan que chegou pra ficar... Onde o índice de analfabetismo e a taxa de natalidade são gritantes? Onde a pobreza é crescente, o ensino público precário e as escassas bibliotecas existentes, pouco freqüentadas?
O que impulsiona gerar um grande investimento como uma Editora de livros, num lugar como este? O espírito empreendedor? A inovação de mercado? Quiçá a esperança de uma transformação sócio-cultural? Talvez tudo isto, mas nada disto...
No mercado brasileiro de livros, a história traçada guarda poltrona cativa para as grandes editoras, renomadas e culturalmente conhecidas no espaço didático-escolar. No âmbito literário, a muito não se produzem grandes literatos. Vendem mais os que conseguem falar ao maior número de pessoas com uma linguagem pré-digerida, quer seja da auto-ajuda, da técnica profissional ou da indicação para o Vestibular. Vende-se sobretudo o que é entendível, o que é fácil de ler. Vende-se o descartável, as fórmulas prontas de felicidade e de transformar o cotidiano. Vende-se formas de pensar, de agir, de comer, de vestir-se. Vende-se maneiras de educar um filho, modos de ser pai, de ser grávida, de lidar com as drogas, com os homossexuais, com o dinheiro e com a violência. Vende-se métodos de ser um professor, um advogado, um bom vestibulando, um grande comerciante, um bom marketeiro. Ensina-se a ser gente. A viver.
Bons tempos em que os livros eram comprados para a transcendência, para a degustação, para a fruição e discussão ideológicas. Tempos em que o latim era aprendido nas salas de aulas e lia-se Machado de Assis mais na preocupação de educar que passar no Vestibular. E de quem é a culpa? Há culpados? Internet, games e outros estrangeirismos, tempo escasso, televisão, shoppings??? Poderíamos nominar fatores diversos e ainda assim, nenhum deles seria efetivo.
O dia cheio, o bombardeio de informações, a poluição sonora e visual, o trabalho técnico repetitivo, a exaustão, o stress. Ao fim do dia, a necessidade de uma leitura ‘de ócio’, relaxante e que exija pouco desgaste mental. E o livro? Continua sendo livro? Qual a definição mais próxima? E por que investir na leitura de qualidade em meio a toda esta economia de diversão?
O universo literário não é local. A leitura não é estática. Qual fosse, Drummond não sairia de Itabira para o mundo. Euclides Neto não sairia de Ipiaú para o Brasil. Jorge Amado não sairia de Ferradas para as diversas traduções por tantos outros territórios. E são estas letras tão fecundas, que se mesclam com diversas outras mídias e permanecem respeitáveis. Assim, pode-se encontrar entrevistas com Euclides na internet, comprar cd’s com poemas de Drummond e assistir às novelas com base na obra de Jorge Amado. A convergência continua. A qualidade das letras também.
O que é preciso é iniciar um processo de reeducação, uma r-evolução; que leva tempo como semente a ser germinada e chegar à maturidade. Mas, é preciso semear. A trilha é extremamente difícil, mas sabe-se por onde começar: nas escolas, com cada docente, com cada aluno. Um trabalho que deve unir criatividade e esforço, perseverança e imaginação. Um trabalho que deve resgatar não só a importância da boa leitura como também a preservação da memória regional, do escritor baiano, da inovação mediante produção de olhares diferentes sobre os mesmos cenários. Um trabalho que deve tomar o livro como um presente, a leitura como um crescimento, o conhecimento como patrimônio intransferível.
A Via Litterarum nasce em Itabuna com pés para andar por toda a parte e território. Com linhas para todos os bons-gostos e idades. Com vontade de crescer, amadurecer, permanecer. Preservar a arte, incitar a cultura. Fazer parcerias, comunicar, educar, fazer (o) saber. Nasce para dar resposta àquela pergunta primeira: até onde pode chegar o autor regional? Juntamente com você, leitor, professor, exegeta, vamos responder que podemos conquistar o mundo.
A semente já foi lançada.
Júnia Martins