Quem ganha as eleições 2

 

Há cerca de mês e meio, circula, no rádio e na televisão, um inteligente bloco de peças publicitárias veiculadas pela Justiça Eleitoral recomendando a responsabilidade do voto, a gestão cívica e zelosa desse importantíssimo instrumento (e exercício) de cidadania singularizado no gesto da escolha de governantes, deputados e senadores para gerir os 27 Estados da Federação e o presidente da República. Confesso totais assentimento e entusiasmo com o conteúdo e as intenções das ditas publicizações na mídia eleitoral e cidadã, reconhecendo sua vital e decisiva contribuição ao esclarecimento do processo, as inerentes responsabilizações civis e a consciência do voto, permitindo refletir e convocando renovados olhares e modelos da prática de delegação dos poderes executivo e legislativo, alternados de quatro em quatro anos.

Pessoalmente, sou favorável ao voto como manifestação voluntária e universal da cidadania. O voto obrigatório predispõe o indivíduo à raiva surda da impotência sobre suas livres ações. Complemento ideológico de mudanças, o voto voluntário (e livre de multas, penas e restrições de qualquer ordem, incompreensíveis numa democracia) só tem a aperfeiçoar os sistemas sociais e políticos. Mas reconheço, impotente, que o voluntarismo também poderia favorecer (ainda mais!) a nefanda prática da compra massiva de votos, feita com o dinheiro vil e sujo das avalanches morais sobre os embrutecidos pela miséria ou os envilecidos pelo comodismo, entregues à triste sorte dos que não mais se levantam — frontes eternamente caídas ao peso da paralisia de movimentos.

Dizem os mais cínicos que o povo gosta é de festa e trio elétrico e dinheiro grosseiro estendido para atender às suas urgências imediatas, povo esquecido de que, ao receber os materiais de suas emergências financeiras e de sobrevivência, potencializam o continuísmo de suas eternas servidões. Fazem (e precisam), esses tais cínicos, da pobreza econômica como um clichê contínuo, a salvaguardar protetorados espúrios, eternizando as manipulações. Humilham os mais fracos, justificando que todo pobre se vende fácil. Especializaram-se em suprimir e vilipendiar a alma crédula, ingênua, generosa do povo pobre. Mas a pobreza não é um clichê assim tão plano de convencionalidade, podendo se travestir em miséria, e na miséria mais aguda, que é o desconhecimento de sua própria exploração. Os que se locupletam economicamente não estão nem aí para os que vivem na rebarba, na periferia, na estrumeira do capitalismo doentio. Todos conhecem (ou adivinham) os profundos males causados pela tortura entre os encarcerados. Mas a tortura também se evidencia pelo abuso do poder econômico, que reduz o ser humano à condição de bicho, alimentado pelo instinto e pelas necessidades materiais de sobrevivência. Por isso os cínicos investem e semeiam a descrença na atividade política (atividade, segundo eles, para profissionais e traíras), colhendo os frutos de sua própria indignidade na manutenção de seus eternos privilégios. Porque apostam na inércia, no imobilismo, produzindo os cânceres e os desertos, tal como fazem, no verso de Augusto dos Anjos, os operários das ruínas, tudo confluindo para a visibilidade dos círculos viciados no fique-tudo-como-está-para-malharmos-os-políticos. Só ficam vivos os vermes, alheios ao abismo da sonegação moral, os desistidos e lerdos, definitivamente entregues às bruxas negras da derrota, aqui traduzida como capitulação, desesperança e mortificação em vida. A inércia do pensamento acarreta a renúncia à capacidade de inventar o dia novo, renúncia de nossos sonhos, da infinita senda de gerar transformações.

De um lado os poderes (vale dizer, políticos e governantes), que sempre tomaram atitudes à revelia da participação popular e agora amargam (não raro com cinismo e agressividade) a falta de maneiras civilizadas, desconsideração e desrespeito explícitos; de outro os profissionais do engodo, da maquiagem para turismos amadores, também sexuais e pedófilos — fazendo soçobrar qualquer expectativa de redenção na Polis, na política aristotélica e condenando-nos ao poço sem fundo e sem extremidades reconhecíveis. Os maus políticos só legitimarão os descompassos entre a palavra e o ato, sem compaixão para os nossos ridículos e nossa ausência de vigor em reagir aos abismos. As escolas não educarão para a cidadania, políticos-empresários construirão o nada, para o nada, e do nada para lugar-nenhum. Se precisamos educar o nosso povo para a civilidade através do voto, também precisamos ser humildes em reconhecer as verdadeiras limitações e necessidades deste mesmo povo segundo suas próprias demandas.

Resta-nos recorrer novamente a Augusto dos Anjos que, no poema “Os doentes”, assinala:


Quando eu for misturar-me com as violetas,
Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra,
Reviverá, dando emoção à pedra,
Na acústica de todos os planetas!

 Resta-nos também reconhecer, como no circuito publicitário da Justiça Eleitoral, que ganhará as eleições aqueles que votarem no respeito e na identidade profunda ao lugar que ele habita, não permitindo a dispersão nem o rumo dos despenhadeiros. Quando morre um homem (ou uma mulher) na velhice, dizemos que uma biblioteca se incendeia. Quando morre um sonho, um patrimônio coletivo de esperança se volatiliza — e assim ficamos vazios de energia, de vitalidade. Por isso precisamos educar nosso olhar para a sensibilidade de ver o mundo real colorido de sonhos, pois os sonhos edificam o futuro. Olho no olho, olhos que não mintam nem disfarcem a rota de um futuro digno, começando pela ação legítima do voto que redesenha nossa expressão humanista.

 (16 a 18/9/06)