Como votará Belmonte?
(e o que diria Sosígenes disso tudo?)

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Caminhando na Soares Lopes, como faço toda madrugadinha para ver se me fogem aflições hipertensivas e cardiovasculares do corpo e do espírito, bato de frente com eqüinos pastando nas margens capineiras (onde encontram água é que não sei dizer, já que água do mar ainda é interditada como fonte nutricional). Vencida a principal avenida da cidaderomancedobrasil, contorno a Dois de Julho, no extremo da baía do Pontal e dou de cara, já na pracinha próxima à Marquês de Paranaguá (ou seja, no nervoso coração da antigamente aprazível estância encantada do litoral sul) com urubus funcionários públicos cumprindo sua saga operária, limpando a cidade de dejetos urbanos, pequenos animais mortos, restos de comida borrifando a paisagem de maus odores e demais prejuízos aos demais sentidos. Ao lixo prazenteiro, vamo-nos acostumando, que visões de esplendor não nos estarão disponíveis todo o tempo — vamos, afinal, convir.

Desse simulacro de esteios visuais e olfativos, salto para as eleições que se aproximam. Não vá quem me lê nesse instante imaginar que me torro de amores por reavivar emoções nauseabundas (opa! epa! desculpem o mau jeito de expressar-me, a culpa é da indigitada língua portuguesa que nos assiste e assalta). Mas falar em eleições, associando-as a cheiros e vistos parece-me natural nos últimos tempos. Tanto que, uma vez mais, me preparo para cumprir à risca a instância cívica no próximo primeiro domingo de outubro, exercitando-me no esporte de comprimir o nariz diante da urna eletrônica e movido pelo protesto simbólico e mudo de dizer “eu quero é mudança, já”. Claro que, sendo o voto um equipamento ideológico de alteridades e uma manifestação da vontade de que algo mude mesmo para valer, já tenho os meus eleitos e só não os declino aqui para não me acusarem de subornar consciências, como, aliás, faz o governo de Hotária, manipulando destinos, homens e mulheres possuidores de emolientes desejos de mais e mais agradar os donatários da Capitania.

Velhos sentimentos recobertos de musgo, para reagir a velhos veios de ódio recoberto de anulamentos, me acossam indignações as mais desconjuntadas quando penso em alguns pleitos e em algumas figuras típicas da hipocrisia militante quando chegam as eleições. A inteligência marqueteira transforma excrementos em ouro dos mais legítimos quilates e quimordes. São discursos de modernidade esquiva aos fatos, leituras de convencimento aos incautos, que se babam de gozo ouvindo e vendo briosos meninos dourados, filhos e netos das donatarias, lambuzando-se de favores, pelo voto, o que nunca devolverão em dignidade de propósitos. E como ficam, de repente, brilhantes remendando a opacidade os candidatos, alguns já grisalhos, repetindo a cantilena de um amor tão sem limites à terra de seus avós, seus pais, seus filhos e netos, numa ciranda de puxa-e-estica mais parecendo “Quadrilha”, aquele poema de Drummond que dizia Fulano gostar de Beltrana, que amava Sicrano... até findar-se o afeto em Lili, que não amava ninguém...

Pois lembrando-me de promessas de candidatos e eleições, ipso factum (hoje, como vêem, estou bastante latino e talvez latindo), recordo a gloriosa cidade de Belmonte, terra de Sosígenes Costa e Durval Filho e de um santo de altar que aqui na Terra atendia pelo nome inesquecível de Ângelo Victor de Oliveira, que conheci presidente do Sindicato Rural do município. Como município, aliás, Belmonte permanece isolada do sul de Hotária, ilhada e sem âncora nem no Oceano Atlântico nem em sua ligação com a crescente Canavieiras. Tudo porque alijaram de qualquer vestígio de lembrança a homônima cidade da terra natal do descobridor do Brasil, o quase folclórico e certamente olvidado Pedro Álvares Cabral. Um cascudo não faria mal a quem atualmente nos governa em Hotária. Prometeu a ponte que resgataria Belmonte de sua exclusão e seu isolamento, antes de tornar-se governador na vez primeira que precisou se eleger. “Prometeu e não cumpriu”, diz a letra do samba, no primeiro, nem no segundo mandato. Fico curioso agora em saber: Como votará Belmonte nas próximas eleições, ainda sem ponte e sem esperança de integração com o sul de Hotária? E que diria o poeta Sosígenes disso tudo?

Então, especulo. Talvez dissesse, como no poema “Pedra Rejeitada”:

“Sofrimento que passei
na masmorra do Parnaso
(...)
Angústia de quem tem presas
as mãos em doze correntes.
Os meus pés foram apertados
em sete sapatos de bronze
(...)
Conheci de perto o Inferno
naquela casa fatal
(...)
Minha alma foi posta a ferros
na casa dos sete véus.
(...)
Fui tratado como louco
na casa dos pavões brancos”
(...)

 Ou talvez a voz de Sosígenes se fizesse ainda mais protestativa, como no poema “A Negra Mingorra”:

“Mingorra, Mingorra que fique forra!”
“A negra Mingorra ainda é uma escrava
Isso é uma zorra!”