Estupros da razão

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Na escala animal, talvez os humanóides nunca estiveram tão desaparelhados e com tanto desprestígio como no atual ciclo, quando rastejamos no mais estreito e reles e pífio rés do pó de cheiro do vestígio da poeira do cavalo do bandido. Já não falo das mesquinhezas mais comezinhas, a que vamos perigosamente nos acostumando, inversões e perversões que se acomodam em nossa pele moral como uma crosta — a princípio incômoda, depois lanzuda, variando de intensidade a cada cosquinha fofa. Afinal, o patetismo dos desconfortos vai se dissolvendo aos olhos vesgos dos desusos e o que antes era escândalo, hoje é quase nada e amanhã talvez não passe de nuvem etérea como as brumas de verão.

O que e por que então comento essas obscuras bandeiras aqui desfraldadas à semelhança melancólica dos desistidos? Justiça vendida, advogados inescrupulosos, magistrados crápulas, médicos irresponsáveis, jornalistas alugados, professores néscios, políticos corruptos, eleitores letárgicos, autoridades majestáticas, senhores feudais, donatários de capitanias hereditárias, de tudo isso já falei neste canto de página, intentando reverberar uns ecos ocos, roucos de tanta inaudição. O resultado é que serei eu mesmo talvez o único que se sente cego-surdo-mudo-frouxo diante de oceanos de passividade e impotência, daí derivando para o delírio ou a demência de ainda acreditar em homens e mulheres de boa vontade governando os sensos e os sentidos etc. etc. etc.

Mas hoje não trato dessas aliterações da razão dispersa, meus amigos. Falo de coisas ainda mais abjetas, a aprofundarem (se isso for possível) ainda mais nossa precária noção de cidadania e dignidade da pessoa humana. Não sei se leram, ou se guardaram na memória fosca a notícia (com foto colorida e tudo) na primeira página da edição do último final de semana do jornal Agora, dando conta, com detalhes sórdidos, da prenhez insólita de uma moça imobilizada numa cama, cega, surda, muda e debilitada mentalmente. As leis da física e da mecânica genética impõem a isso um rigoroso rito: o que entrou, tem de sair. A etapa dos nove meses em breve se irá cumprir e logo penso na moça manietada em leito quase mortuário tendo de despachar um filho gerado pela hediondez. Quem irá assisti-la em sua múltipla agonia? Quem irá protegê-la de futuras afrontas?

E quanto ao sórdido estuprador, patrono da inominável monstruosidade, tão grande quanto o abandono e a solidão por ele semeados, alguma coisa sobrará de nesga de nusga em sua consciência? E nossos discursos, o que deles restará para além da empulhação e pompa promovidas por desconformes notações de palavras evasivas e remissivas de esterilidades? Outras inertes criaturas em outras tantas geografias certamente estarão sofrendo semelhantes escaladas, seduzida e sedutor emaranhados numa corrente contínua de solidão e abandono, mais solidão e abandono, em meio a ramagens de plantas carnívoras sacrificando nossa capacidade de compreender. Sei que o Agora não teve qualquer ilusão de sensacionalismo ao publicar a matéria. Talvez o pudor com que a notícia foi revestida, junto com a serenidade (mas também indignação) com que ela foi retransmitida, não autorize sua continuidade em jornalismo pretensamente investigativo. O jornal cumpriu o seu papel, as autoridades policiais e da justiça devem cumprir a sua fatura no latifúndio produtivo de tantas iniqüidades que acossam nossa sociedade incivil e desmilitarizada.

Mas o que sinto quando leio (ou vejo, ou ouço) coisas que tais é uma grosseira sensação da náusea de estar vivo, testemunhar e não poder fazer nada, além de borrar as mal traçadas que ora lêem os que ainda permanecem me aturando. Porque, devo confessar, não levo comigo qualquer orgulho em me afirmar humano face a “tanto horror perante os céus”, como dizia o poeta brasileiro da elegia aos escravizados. Da náusea passo ao vômito e só sei que continuo sem nada entender. Não vomito na face de ninguém porque tenho educação doméstica. Mas faço questão de lembrar aos que se ocultam no conforto da mudez que tudo que é humano devia nos interessar. A começar desvelando os estupros da razão que cometemos no cotidiano toda vez que nos imobilizamos ante os riscos de nos tornar esquecidos de nós mesmos.