Mangados também vévem?

 

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

   

Difícil ao cronista o saber exato a quem se destinam essas garatujas semanais despidas de musculaturas da fama ou da glória, ambas prosaicas e grávidas de des-sabores. Sem o enleio das ruas, nem a interlocução direta de cúmplices leitores, ficamos mais ignorantes sobre uma possível reverberação ou eco dos motivos aos quais nos debruçamos, detendo nossos olhos distraídos, ainda mais ante o estupor cenográfico de acontecimentos que nos impõem o tropel de paixões de anulamento de nossa já escassa humanidade.

Como não sei precisamente a que interesse leitoral atender, tomo a liberdade de hoje perfilar os sem história, sem voz, sem letra, sem notícia no jornal, numa pálida similaridade, ou semelhança capilar do intentado com êxito por Jorge Amado descrevendo a versão dos vencidos no formidável Tocaia Grande. Sirvo-me, para tanto, da morte, aliás, matéria já um tanto extenuada nas travessias, pegadas, crônicas do viver efêmero, precário e provisório da dilacerada fauna humana, feita de mortos e sobreviventes neste canto de página, jornada semanal desfeita, refeita e rarefeita ainda que nos precipitem consuetudinariamente ao caos.

Conhecido anotador de bicho em Ilhéus, o ex radialista Pedro Araújo (sem qualquer parentesco com quem assina estas notas) faleceu, deixou-nos, viajou para algum campo elísio, ao ocaso da plena atividade de respirar e deixar correr o sangue das pulsações. Dizem-me que se finou na UTI de um hospital permanentemente na UTI de minguados atendimentos públicos, na primeira sexta-feira abrindo o mês em curso. Magro, pálido e abatido nas últimas semanas, Pedro Bufa — como era do mais notório saber popular, calcinado pela má sorte que lhe atribuíram a fama grotesca de pé-de-frízer, azarado e sem banho — desfigurava-se de antigo vigor, que lhe conheci nos idos de meu retorno a Ilhéus e ao sul da Bahia. Era também conhecido como macabro porta-voz de desfechos trágicos (Conheceu Fulano? Morreu ontem!), impedido agora, por singular e óbvio trauma, de noticiar o próprio trespasse.

É o caso de indagar, como sugere o título do presente texto: Os mangados também vévem? Nosso destino ralo não está só escrito nas estrelas, embora os poderosos e pilantras se incumbam de descoser as teias dos tênues fios de nossa permanência entre mortais e semi-deuses. Agora mesmo noticia-se que a justiça cearense, hipertrofiada em seus músculos e nervos, atacada de rigidez cadavérica como toda a justiça (?) brasileira acometida de hemorróidas na alma, acaba de justificar como um bem devido aos probos a renda mensal de aposentadoria de 16 mil reais àquele facínora com toga de juiz, que matou um vigia de supermercado com a frieza de tiros na cabeça e a certeza absoluta da impunidade recompensada com sangria nos cofres e liberdade revisada para a soltura.

Mangados vévem? Não parece ter sido a opção possível a Pedro Bufa que, quando ganhava, ele mesmo, no bicho, com uma combinação de números e resultados mais confusa que convenção do PMDB, despendia cerveja a rodo, mesmo aos que o humilhavam na cerca das indiferenças e impostações da voz perversa. O anônimo Pedro (e anônimo não será tão somente o que não se conhece o nome, mas aquele também a quem se sonega o registro da dignidade existencial) viveu e penou seu anonimato, conjugando-se eventualmente a um talento (do desenho, da caricatura) que poucos vieram a conhecer. Com o esquecido Pedro não se poderá dizer que morre o homem, fica a fama, como se aos anônimos só pudesse restar a certeza de olvidamento de sua passagem sobre a Terra.

O credo cristão conta com a máxima de que os simples herdarão a Terra (ou serão os céus como legado?). Fica difícil acreditar em tais emblemas, vendo, como vemos, a sacralidade dos desvios como norma de conduta, a justiça dos tribunais pendida (atenção, revisor, não confundir o p com o v, pelo amor dos meus filhos!) sempre aos interesses dos poderosos, a palavra empenhada e desempenhada ao abrigo das imposturas. Os simples herdarão, sim, a terra, mas a que lhe entra pelo nariz, sete palmos cavados da superfície do solo, ou misturado à massa de cimento nas gavetas dos cemitérios. Pedro Araújo Bufa jaz no silêncio da obscuridade e na morna acomodação dos indiferentes. Com ele estarão outros mutismos de outros tantos sem voz, sem sombra, sem paz e sem registro entre nosotros, os auto-nomeados justos, de uma justeza de jacaré desiludido, casado com cobra d’água dos brejos das almas.