ÉTICA, JUSTIÇA E MATÉRIA-PRIMA

Jorge de Souza Araújo

 

Há 25 anos, neste mesmo 28 de julho que assinala o Dia da Cidade de Itabuna, nascia o Agora, cujo nome foi por mim batizado, escolhido como signo de emergência da verdade da informação (matéria-prima de todo bom jornalismo, convém referendar). Eu antes acompanhara o esforço de José Adervan e Ramiro Aquino conduzindo o velho SB, depois uma empresa de comunicação e promoção de eventos e participaria da fundação do então semanário, que seria o marco do que afinal se tornou, juntamente com, se bem me lembro, Ricardino Batista, Eduardo da Anunciação e Kleber Torres. Entre as sugestões de nome oferecidas em 1981, fixamo-nos no emblemático Agora, no seu eslôgan A segunda-feira bem informada e no futuro surgimento do caderno Agorinha, dedicado ao público infantil — alguns dos leitores maduros de hoje talvez se recordem.

Os primeiros números da meninice, os da pré-adolescência e adolescência e agora os do avanço para a idade adulta certamente cumularam o jornal de múltiplos triunfos e, sobretudo, múltiplas dificuldades, fáceis de prever em publicação que ostenta paradigmas de qualidade impressa e editorial depois de atravessar períodos críticos que assustariam os trêfegos e afogariam os desistidos. Não foi o caso do Agora, ora diário, com um segundo caderno — a Banda B — cobrindo distintos ângulos da cultura da informação e da civilidade da cultura, circulação avantajando-se pelo interior da Bahia e sendo hoje, de longe, o melhor veículo de informação impressa, fora os jornais editados na capital do Estado, pelos óbvios motivos de circunstância econômica e da tradição no ramo.

Tais atributos animam-me à reflexão que proponho por ocasião do ingresso do jornal em sua fase adulta, investindo e apostando na maturidade de sua evolução. De par com o depoimento que me pedem para este caderno especial de aniversário, gostaria de produzir alguns elementos de enfoque crítico que, ao meu juízo, contribuiriam para o melhor aperfeiçoamento das diretrizes abraçadas pelo Agora desde seu número inicial: o compromisso com a verdade da informação, intrinsecamente associada às matrizes éticas da atividade jornalística, visando ao interesse público da maior parcela da população leitora. Travestindo-me de ombudsman amador — e adiantando-me, sem que me tenham pedido isso —, cumpro um dever de ofício da consciência crítica para com o que prevejo ser menos atraente na leitura deste jornal que todos nós — uns mais, outros menos — aqui fazemos.

O Agora e todas as anteriores iniciativas no campo da comunicação em que se envolveram Adervan e Ramiro nasceram sob o logosímbolo do idealismo. Assim foi com o SB arrendado a Nelito Carvalho nos anos 70, quando a paixão pelo jornalismo impresso sulcava marcas profundas nos dois nomeados, contaminados pelo cheiro de tinta e papel desde os tempos de garatujas gráficas e em jornais estudantis. Assim foi com a empresa de publicidade e marketing, promoção de shows e eventos culturais, programas de rádio e tudo o mais que acompanha os dois profissionais emergidos da estafante carreira laboral no antes prestigioso Banco do Brasil. Vitoriosos na vida pessoal e familiar, vitoriosos seriam também em seus misteres ocupacionais obedecendo à égide do ingrato serviço público que desempenharam e continuam desempenhando, re-escrevendo a história da imprensa soberana no interior de um Estado tão pretensioso e arrogante para com os seus jornais e jornalistas (bastando lembrar, como maior ilustração da perversidade ainda hoje militante, a lenta agonia e o assassinato eloqüente do valoroso matutino Jornal da Bahia, onde este locutor, aliás, teve a oportunidade de ampliar seu tosco aprendizado obtido no extinto SB de saudosíssima memória).

O depoimento acima toma a forma de preito aos obstinados e respeito aos verdadeiramente democratas. Não nego a outrem o que pretendo e espero que não me retirem. Antes desejo que enxerguem no que adiante proclamo a expressão legítima da necessidade e vigor da crítica honesta e, se possível, reorientadora. Se nunca fui censurado no Agora e se a tradição de liberdade de seus colunistas até aqui tem sido rigorosamente observada, e com total isenção, sem que diretores ou editores-chefes se imiscuam nas manifestações de colaboradores, quero crer que a tradição de lisura assim permaneça e não desfigure a imagem do jornal que ajudei a fundar, embora vestindo a túnica de um simples palpitador, residindo no Rio de Janeiro e por aqui amassando o barro das ilusões vestidas de sal.

Isso posto, reassumo a liberdade da discordância, rimando unidade com diversidade. É que carrego comigo a impressão dolorosa de que, se o Agora alcançou um grau de excelência em suas componentes visuais, de variedade na informação e expansão de matérias e colunistas, prestigiando os valores culturais do sul baiano, preservando esses valores e incandescendo-os na memória regional (caso da revelação de novos profissionais, mesclando o novo com o permanente e, o mais gracioso, a Bienal de Artes Plásticas, que pela terceira vez se realiza), em sua dinâmica jornalística o Agora se tem mostrado com as travas das chuteiras politicamente expostas, exibidas numa unilateralidade que sufoca direitos sociais à plena informação, em seu contencioso ideológico e em sua plataforma de universalidades. Não tenho, claro, vocações papais nem para magistério em que outros podem muito melhor se desincumbir. O jornalismo tem suas normas jurídicas e morais e, pelo seu caráter de mediação, deve contemplar sempre os dois lados da informação que divulgar. Para sua mais ampla defesa, a atividade jornalística deve sempre pautar-se numa inalienável especificidade ética, que pressupõe o conhecimento integral de sua história e de seus limites. Por isso os códigos normativos do bom jornalismo são pautas temáticas e deontológicas que nunca se extinguem, com isso pretendendo-se que o modelo não proscreva seus termos, nem capitule diante de direitos fundamentais como cláusulas de consciência, absoluta verdade na informação, com apuração exaustiva dos fatos e o respeito ao contraditório, vale dizer, ouvir a parte denunciada numa notícia alarmante.

Falo isso com propriedade porque tenho testemunhado (pela leitura das matérias, é óbvio) o quanto de unilateralidade o Agora tem praticado em algumas de suas campanhas. Fiquemos no mais recente escândalo veiculado pela inacreditável revista campeã de vendas no repertório de lucros da Editora Abril. Reverberando o péssimo laudo de desaprendizagem de manuais de redação da dita revista, o Agora fez render o tal “terrorismo biológico” em, pelo menos, dez edições desde o surgimento da matéria original. Em todas essas edições — e em cada uma delas fazendo o notório ensuite proverbial nas antigas redações —, o jornal que ajudei a fundar só noticiou um único lado da questão, o pensamento único, a versão batidíssima da sabotagem vassoura-bruxina. Não se ouviu um só dos citados como criminosos botânico-financeiros, enquanto até vanguardistas do (e responsáveis pelo) atraso econômico e jurídico deitaram, rolaram, se espevitaram, especularam, se regalaram com as desgraças inconcebíveis (ainda que sem provas) dos condenados às fogueiras das novas inquisições caçadoras de bruxas.

Bom jornalismo ainda se pode fazer divulgando fatos e feitos de prefeituras municipais, mas que se distinga o release — da denúncia que se precisa apurar, o alinhamento automático — da crítica soberana que nunca deve faltar. O texto formidável dos editoriais do Agora me autorizam pensar que o sentimento de liberdade neles brilhante e que deles se desprende pode muito bem esparzir-se para outros espaços em que a precipitação do release afoga o espírito público, desviado da notícia sobre incontáveis trompaços sofridos pela moralidade administrativa em gestões municipais infladas de vampiros bebendo o sangue de infantes morrendo de verminose e diarréia enquanto os nosferatus celebram o caos como se festejassem suas subidas aos céus.

Estas são algumas das minhas impressões (e certamente haverá outras e outras tantas divergências de mim e do que penso e ora exponho). Que o Dia de aniversário do Agora — e da Cidade que o abriga, move, comove e estimula — seja dia também de reflexão, além da festa muito justamente comemorada. Que jornalismo, ética e liberdade da informação sejam nossos permanentes paradigmas, diante dos quais nunca devemos nos esquecer ou dissimular. Se ainda houver um futuro (uma vez que pessimistas já imaginam a próxima hecatombe universal conspirando entre um e outro bocejo dos estadistas de araque que governam o mundo), que este nos conceda o bem supremo da Palavra garantidora de todas as expressões que humanizam o homem e lhe impedem a derrocada final. Que o senso da Beleza, o universo da estética e da matriz libertadora das nossas iniciativas estejam sempre conosco.

Agora e Para Sempre.