Ainda que nos precipitem

Jorge de Souza Araujo

Viva Zé Pereira!

 Nada como uma festa atrás da outra, sem nenhum intervalo no meio da sisudez. A segunda grande obra da atual administração da cidade r. do B. começou na última sexta feira (ou seja, ontem) e vai até a reinação do Apocalipse, no final de todos os tempos do cólera. Mas como, no Brasil, banalizam tudo e todos, é possível que o Apocalipse também seja desmoralizado, não se reunindo as condições para ninguém vir julgar os vivos e os mortos, que por certo se esbaldarão nos plantões da folia momesca até à madrugada de 2 de maio deste imorredouro ano da graça de 2006.

Como aos poucos estou deixando o clube dos barrigudinhos, deve ser por isso que meu coração, ao invés de se expandir, está encolhendo a olhos e sentidos vistos e percebidos. Pois já não encontro a mais ínfima parcela de entendimento a propósito do caos e do cinismo circundantes. Por isso também que o louvor entoado a Zé Pereira no título acima não ecoa nenhum evoé ao Baco tropical, mas a qualquer dos muitos Josés Pereiras que labutam no brutal cotidiano de muitos esforços, sem compreender direito porque esses esforços nunca se materializam em benefícios, mas em inúmeros outros esforços de muitos, que resultam nos eternos privilégios de uns tão poucos que não se chamam Josés Pereiras.

A claque encalhada nas mesmas marolas de que “a festa movimenta a economia da cidade, gerando emprego e renda para a população” certamente torcerá o nariz a minhas desídias de pensador suburbano isolado no despeito e no abandono. A dívida social, combinada com a dívida moral, não encontra jamais signatários nem resgatadores. “Dêem festa ao povo, que ele sequer lembrará que é povo” — parecem consumar com a sentença a decisão do poder só reagente à perda dos cascos ou morcegos do mesmo poder. Nossas tropas de cavalgaduras políticas, inspiradas em seus estoques inesgotáveis de mistificação, inventam novos e remendados ingredientes de palavras vãs para confundir pascóvios.

E conseguem. A cidade r. do B. respira carnaval, mesmo que este seja fora de época, sabor e tom. A maioria nem parece se importar com a acintosa carência de um-quase-tudo na moradia ou no trabalho, no saneamento ou nas estradas, na escola ou na emergência de saúde, na qualidade de vida ou na dignidade da morte. Não são apenas cinco dias de folia, são séculos de desperdício e irresponsabilidade, milênios de criminosas omissões. Se alguém, no meio da noite, sentir-se mal na cidade r. do B., se não tiver dinheiro para deslocar-se para outros centros, pode apostar que perderá titularidade no mundo dos vivos.

Que estes, os vivos, agregam à sua condição de muito vivos o serem espertos o suficiente para driblar embaraços com a justiça, a legalidade, a legitimidade e outros distúrbios, tão passageiros quanto a efêmera denunciação de seus desvios e encruzilhadas. Porque eles, os muito vivos, têm brevês de pilotos de prova em fábricas de infortúnios morais, a nós restando, aos mínimos que ainda pensamos, apenas o desempenho canhestro de pilotos de prova em fábricas de supositórios. Perdoem-me meu brevíssimo leitor, minha cautíssima leitora, mas o que temos mesmo a festejar, em pleno final de abril, começo de maio, saltitando na avenida como bezerros lambões? É certo que o Colo Colo faz brilhante campanha, mas e o conjunto de outras tantas carências sociais, políticas, econômicas, culturais, educacionais, que pedagogia de emancipação identitária estamos legando a filhos e netos de nossas (des)esperanças neste solo sagrado de outrora sonhadores, nada carnavalescos?

Se penso que carnaval deve ser comemorado no carnaval, podem tachar-me de antiquado, pois estarão cobertos de razão, serei mesmo isso e mais alguma tanta coisa de que já nem me lembro. Mas aos que forem se esfolar no barraco armado na avenida, perenizando em ouro de quase dois milhões de quilates reais o caixa robusto de bandas plurieletrizadas, desejo apenas que não se deixem morrer. Quero-os todos sobrevividos para, quem sabe, algum dia, possam vir a concordar comigo.

Enquanto isso, evoé, Vida! Viva e dure para sempre, José Pereira! Você também, Maria Padilha!