Ainda que nos precipitem

Jorge de Souza Araujo

 Outras verdades

 No último épico que escreveu, publicado em 1931, adequadamente intitulado As voltas da estrada, o romancista baiano Xavier Marques (1861-1942) documenta e descreve as bruscas mudanças de comportamento social decorrentes da Abolição da Escravatura. Já quase ao final da obra, o narrador conclui, com serena amargura, que é preciso envelhecer para ter o direito de ser pessimista.

Não sei se concordo de pronto com o notável recriador de almas sensíveis nascido em Itaparica. Afinal, o pessimismo também representa atitude de espírito ministrada pela desconfiança de que tudo o que seja humano é passível de erro, descoberta que não depende de idade, época ou história. Shoppenhauer assim o configurou cientificamente e o eterno mestre Machado de Assis perenizou o pessimismo como loção ou elixir próprios da humana experiência, vitalizado não exatamente no outono, podendo exibir-se na primavera ou no verão.

Por aí navegam meus pensares e pesares. Posso ser tido como um pessimista enxaguado de otimismos eventuais, da mesma forma que otimista incorrigível pontuado de paralelos pessimismos, na cola dos altos e baixos relevos da existencialidade comprometida por tão inúmeros contrapelos da vida moderna. O que logo me faz pensar no pobre Rousseau que, se vivo fosse, muito teria que lamentar o quanto hoje não dispomos de qualquer acordo ou contrato social que preserve as individualidades, diferenças e a felicidade como um bem possível aos indivíduos. O que fazemos é tão somente projetar uma imagem coletiva auto-indenizada de ingênuas compensações, comendo massa de sonhos e não viabilizando espaguetes ou lazanhas de ideais, cultivando teares humanistas sem a contrapartida de tecidos sociais de permanências vitoriosas.

Assim me vejo, à semelhança das “Outras palavras” de Caetano Veloso, forçado a comunicar “Outras verdades”, movimentando novas composições de pensamento, alternando pessimismos e otimismos na bacia de nossas expectativas. Vejamos o exemplo do governo Lula, que evoluiu à revelia dos desejos de uma elite habituada a sempre mandar e a nós exigindo uma obediência de vassalos sem causas. A ousadia de um ex-operário, galgando a máxima autoridade política e administrativa, antes feudo exclusivo dos mesmos mandões, nunca foi plenamente assimilada — eis uma límpida verdade, que pouquíssimos assumem. Os erros grosseiros de militantes do Partido dos Trabalhadores são verdades absolutas. Como também é verdade que as oposições somente se movimentaram como projeto político para desgastar um governo que acelerava algumas virtudes e ocasionais acertos. É verdade que os desvios e malhas de corrupção grassaram como sarampo na seara do Executivo. Como também é verdade que o caixa dois é patrimônio de todos os partidos em iguais partilhas de encobrimentos e desfaçatez.

Não é à toa que sucessivos planos do mega-Estado internacional continuamente se empenham em cooptar elites pensantes, comprando veículos de comunicação subordinados à eterna dependência de lucros e acumulações. O ciclo da economia neo-liberal ganha sempre e renovados contornos excitados na gula de mercados predadores. O propalado Quarto Poder da República, também apelidado de Imprensa Livre, não passa é de Poder Econômico de donos e diretores midiáticos, ditando o rumo e a regra de interesses latifundiários no campo e nas cidades, sempre com a mesma sanha exclusiva dos furos na ética e na dignidade da maioria. Muitos outros, por ignorância e outros busílis, o que fazem é o elogio da miséria brasileira para que ela sempre se mantenha. Outros muitos querem o Estado mínimo para permanecer assegurando o estado máximo de seus confortos e garantias de perenidade dos ganhos.

Bala sem rumo não tem endereço fixo, mas seu objetivo é certeiro: ceifar vidas e reabilitar caos. Abril findando e o orçamento de 2006? Aliás, quem se importa? O que eu mesmo me pergunto é: que hora vamos parar pra descansar? Como sou míope e astigmático (corrijam-me os oftalmologistas), talvez não enxergue um palmo nem acima nem abaixo nem nos lados de coisa nenhuma do nada. Mas posso sentir cheiros, quando eles são tão nítidos. Eu que, das 4 às 4:45 de terça a sexta, assisto ao “Repórter Nacional” da Radiobrás reprisado na rede Vida, facilmente concluo que a “Veja” não é uma revista de comunicação, mas um poço de petróleo de iniqüidades. Se falamos de petistas trapaceiros, ocultamos peessedebistas tão isentos quanto Fernando Henrique nas privatarias ou Almir Gabriel na chacina de Eldorado dos Carajás ora fazendo dez aninhos, ou ainda aquele deputado do Tocantins envolvido em escabroso caso de tráfico de cocaína. Se batemos (porque devemos) no governo atual e seus escândalos, esquecemos que a CPI da corrupção no governo Sarney foi arquivada por Inocêncio de Oliveira sem investigar o Ministério das Comunicações e arreganhos fabulosos de rádios e tevês distribuídas a rodo. O capitão responsável pela morte dos 111 presos do Carandiru é hoje deputado em São Paulo, mais limpo que o governador da época, deputado por São Paulo em Brasília.

Falamos de ocupações dos Sem-Terra e da economia de mercado do agro-negócio, mas não falamos que 1 por cento dos brasileiros ricos detém 46 por cento das terras agricultáveis, nem de bancos e banqueiros responsáveis por escandalosas concentrações de renda ou de assassinatos liminares no campo e na cidade por conta das desigualdades de um modelo reprodutor de latifúndios (sendo todo latifúndio, por natureza compulsiva, improdutivo). Privatizaram a democracia, a ponto de ser ela feita apenas para as mesmas elites que a sufocam com seus privilégios. É verdade que o governo Lula aprofundou a convergência dos melhores e maiores benefícios para os mesmos poucos. Por isso também dele me queixo e pediria seu impichamento por manter políticas tão perversas, no estilo malcheiroso do governo que o antecedeu. No Reino Babel de Hipocrisias, não tratamos das empulhações paulistas de Serrotes e Chuchus de Alvaiade. E ainda queremos ser intérpretes do Povo, como se esse Ente Obscuro fosse o eterno coitadinho beócio, que não pensa e nem vota, ou, muitas vezes, vota (toc! toc! toc! para Pelé) mal porque, agindo como humano, é também capaz de cometer outras pragas da estupidez e do preconceito.

Cansei. E talvez canse os previsíveis leitores com mais essa catilinária. Por isso volto meus interesses para a anatomia feminina pelo método Braille e corro o risco de parecer cínico, positivando o pessimismo como matéria de salvação nacional. Para poder refletir sobre bens e males de outras tantas verdades que não querem se calar. E, por fim, dedico a presente crônica ao grande brasileiro Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, que hoje aniversaria (21 de abril), por ser ele o patrono de nossos otimismos recalcitrantes.