Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

O verdadeiro milagre brasileiro

 

Começa neste domingo, Primeiro de Abril — data, aliás, consagrada ao embuste e às trapaças do anedotário popular —, novo ciclo do piso nacional de salário, mais conhecido pela alcunha de salário mínimo concedido a todos os brasileiros amantes do trabalho. Sei que devo começar assegurando aos que ainda me toleram neste espaço que meus conhecimentos em matéria de economia e planejamento descambam para o aquém da linearidade ou ser esdrúxulo. Serão nulos, talvez, ou, mais provavelmente, deploráveis. Portanto, estarei desculpado pelas heresias aqui certamente cometidas, para bem dos cautos e ira sagrada dos previdentes.

A verdade é que, toda vez que leio ou ouço, ou vejo-e-ouço alguns dos nossos bem postos tecnoburacratas, observadores privilegiados da arrancada brasileira no rumo da redenção econômica, me sinto menos dotado que um verme. Recordo-me de semelhante passadio naqueles idos de 70 de funestíssima memória quando um gordo ministro anunciava o milagre. No então daquelas guerras, dia ruim outro péssimo, dizíamos: não, não é esse milagre o verdadeiro.

Agora, como outrora, inquirirão: quem sois vós para contestar o peso de informações que coonestam a salvação e o milagre considerado por todos os pais da pátria e os patrões e, mais, os padrões da bem fornida máquina de formar opiniões e triturar os sobejos? Emerjo do pó dessas euforias neo-ufanistas com a sensação de que, mesmo honesto, nunca poderei ombrear meu pensamento e meu parco entender para explicar o verdadeiro milagre brasileiro.

Percebo não estar catalogado o meu pensamento em nenhum código respeitável de leis macro ou microeconômicas, embora conste de meu parcimoniosíssimo e lerdo jargão pessoal que, muito embora desprezível, será meu e comigo levarei para a tumba. Não haveria qualquer possibilidade de defender minha tese em seminários de reputação nacional, mas, exatamente por isso, faço fé que meus poucos leitores poderão comprovar os resultados de minhas observações, cada vez mais agudas nos últimos anos.

Não importando o que a maioria silenciosa, cúmplice, ou omissa possa e/ou deva acreditar por dever de ofício, para mim o verdadeiro milagre significa o malabarismo financeiro a que estamos sujeitos os brasileiros assalariados, desde o patamar mediano ao menor que mínimo, essa traça comum aos esmagados e geométricos. Percebendo (por que o trabalhador só percebe, de longe, o seu dinheiro?) o mini-mínimo, o trabalhador tem a possibilidade de pôr em prática seus conhecimentos de Economia Rasurada e Jogadas de Efeito. Tem de tirar de letra o seu rico dinheirinho, esquartejá-lo em cifras distintas, tudo tendo que dar para a feira, o aluguel do barraco, o remédio caríssimo na farmácia, uniforme e material escolar para os nove filhos, a cesta básica (ah!, a cesta básica!) etc. etc. etc., principalmente os et ceteras.

Se imaginarmos que, tirante os paladinos da crença salvadora de que nada aumenta ou sobe, ao contrário das leis da Física, se imaginarmos que houve aumento sutil dos preços na mesma esteirinha do que diminuiu ou engessou em matéria de salários, poderemos facilmente constatar a incidência do milagre verdadeiro, que confirma a minha tese. Senhores e senhoras, prezados concidadãos, é humana e organicamente impossível, surpreende os cânones dos economistas mais conceituados, desafia os cérebros mais engenhosos verificar como alguém consegue exercitar-se na corda bamba da receita/despesa ganhando salário tão vil, num esquema capitalista-milagreiro como este que ainda vige. Explicação única, inquestionável?: o milagre, a vida do milagre.

Como é que alguém, com o salário real, pode segurar as pontas do seu desespero e aflição, permanecendo na linha moribunda da sobrevivência, sem apelar para a desesperança, sem comprar corda para se enforcar? Como esse alguém encontra tempo e dinheiro para divertir-se, namorar, ir ao futebol e tomar umas no boteco da esquina? Pela via do milagre, claro.

Tudo isso desafia a enorme população de cientistas econômicos do mundo inteiro e de ampla margem de vitória para a minha tese. O verdadeiro milagre brasileiro permanece em curso, não é coisa nem de 70 ou 90, mesmo baralhados e intimamente confundidos os modelos. Não é uma metáfora no jogo dos arrebatados, nem um dos eufemismos tão ao gosto das modas, pra variar, otimistas. É, antes, uma realidade. Dura, inconveniente, incômoda. E, no entanto, óbvia, simples, viva, explícita.

Inda que complexado, o verdadeiro milagre brasileiro é histórico, irreversível, até quando os pregoeiros do outro buscarem sentar-se em torno de uma mesa de debate franco, e sobretudo honesto e democrático, onde será posto em discussão o destino a ser dado (e a correção dele) a um milagre que escapa a qualquer compêndio convencional de economia e nem foi autorizado por nenhum santo ou iluminado messias que mereça autoridade.