Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

Da barbárie e suas imposturas

 Vivemos horas crepusculares da moral e dos bons costumes de uma civilização que há muito decretou a morte das boas expectativas. As últimas cicatrizes logo se reabrem em chagas intermitentes. O sangue do menino João Hélio sequer esfriou no asfalto do Rio de Janeiro e outro infante é degolado na cosmopolita Porto Seguro, uma menininha de menos de dois anos é violada sexualmente, abatida a golpes de besta e abandonada na pia batismal de uma igreja evangélica na límpida Joinville, glorioso Estado de Santa Catarina.

Chega! Desisto! Não há mais como reaver cindidas esperanças, meus caros. De nada adianta recrudescer ou blablatizar as já tão batidas expressões de estupor ante tanta calamidade — ou, como diria o poeta da liberdade, tanto horror perante os céus. Máscaras se sucedem em uso quase ininterrupto, como adivinhando a sombra de nossa inércia e mistificação. Vamos logo registrar nossa impotência civilizatória e decidir pelo restabelecimento de um Estado Cínico e Despudorado, cujos cidadãos e cidadoas só se locupletam de suas mesquinhas individualidades. Ao sangue escorrido de corpos tão tenros, poderíamos reagir como na ironia da escritora baianense Judith Grossmann, que no FaustoMefistoRomance assinala que Deus não mata, arrebata. Nossa indignação, de tão efêmera e casual, mais se assemelha ao destino da crisálida, cuja existência dura um mísero dia. O que mais dói no desaparecimento de nossas crianças é que, segundo a filosofia zen, morrer significa, antes de mais nada, estar preparado, ou preparar-se para a morte. Os meninos tiveram ceifado o seu tempo prévio.

Aliás, banalizaram tanto a morte, que até esta perdeu toda a dignidade. Não mais concede sursis, a exemplo dos pactos legendados de outrora na memória dos profundos mistérios. Sinto-me como um casal de preás no cio, que não sei como é, mas facilmente posso presumir. Nossos rostos, inoxidados pela incapacidade de empalidecer de vergonha, tornam-se mais e mais inoxidáveis ante as dores geminadas entre o Ser e o Descobrir. O que de fato significa hoje: Estamos em pleno caos! ou a um passo do abismo!, ou, ainda, próximos da Barbárie!?

Já vivemos a Barbárie, meus diletos. Não temos justiça, não temos códigos, não temos ética, o dinheiro tudo pode comprar, criminosos especiais ou comuns, desde que pagando bons advogados, não cumprem pena ou, se cumprem, logo são beneficiados por uma multidão de brechas em leis mais esburacadas que as crateras de nossas estradas... Tudo isso levita diante de nossos olhos distraídos porque estamos ocupados demais em consumir coisas e imagens de um sistema social e econômico que congela os infernos para servi-los aos eternos de tudo destituídos. Que somos nós outros, denegados em nosso desamparo, senão figuras idiotizadas pela mesmice das coisas, seres deserotizados vivendo ciclos permanentes de perdas subjetivas (acrescidas às tantas substantivas e objetuais), alguns definitivamente exilados de permanências? O sangue de nossas forças de reação passa longe da abundância de um minúsculo pote. O que fazemos mesmo a não ser prantear as desconformidades do mundo em volta, nós os infinitamente culpados por tanta omissão, tanta indiferença, tanto imobilismo, que resultam em mais crimes e mais solidão de resultados?

Relaxemos. O pequeno satã que atende pela alcunha de presidente-da-nação-mais-poderosa-do-planeta está outra vez nos visitando. Ah, ele já se foi? Que interesses veio agora defender, recheado de crapulices e danações, patrocinando a barbárie em escala universal? Sim, porque os denominados bárbaros sempre foram os outros. Assim aconteceu com o imperialismo romano, alcunhando todo estrangeiro adverso à estrebaria da submissão o tal estigma de bárbaro. Lembram-se das lições da História Universal, quando Átila era o flagelo de Deus e Aguirre, a cólera dos deuses? Pois os bárbaros de hoje serão os espoliados de cidadania no Afeganistão, no Iraque, em Porto Rico, até na incômoda Venezuela. Ao caubói texano (ele já se foi mesmo?, que pena, já se foi bem tarde!) e aos conformistas do ameno plantão brasileiro da inação só me resta declinar trechos de poemas-advertência do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: 

Falar de árvores é quase um crime,
pois importa em calar sobre tantos horrores
 
                       (   )
Não digam nunca: “isso é natural!”
Diante de acontecimentos de cada dia
Numa época em que reina a confusão
Em que ocorre o sangue
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: “isso é natural!”