Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Flagrantes de manhã chuvosa

 

Muitos já se debruçaram sobre o estranho fenômeno que acomete uns tantos homens e mulheres, diversos e dispersos em suas formas de enxergar e reconhecer-se no mundo. Eles pertencem à esquiva e dilacerada fauna dos que escrevem, os que (e por que?) comunicam o que comunicam, a forma que escolhem para portar o estandarte de nossas sobras de humana dignidade, a cera perdida do afeto aos humanos — encurralados, ou não, nas esquinas da lembrança de existir. Outros homens e mulheres colhem e recolhem o que lêem como incursões de ânimo a inacessíveis regiões do espírito e se fazem interlocutores da alegria das descobertas, do formidável prazer da sabedoria compartilhada.

Fôssemos mais leitores, lêssemos mais poesia, confraternizássemos mais com a palavra escrita e muito provavelmente erigiríamos outros valores com que acentuar nossa trajetória existencial, nossa legítima vocação de companheirismo e solidariedade humanistas, melhor enfrentaríamos os desertos da efemeridade dos afetos associada ao crescimento volumoso do desamor, a estupidez da violência estatuída em norma na tortuosa e truculenta modernidade que nos assiste. O amor ao dinheiro ronda nossos instintos, fazendo vítimas tanto milionários da loteria quanto os robustecidos pela ganância de tornar-se milionários. Uns e outros de nós ignoramos a melodia dos sortilégios e imaginamos o que fazemos como a suma magna do universo. Esquecemos a música dos gestos simples e afetuosos, pedagogos do gozo de acumular, autodidatas da pedagogia do gogo moral, o corpo trágico de ser desconhecendo os corcéis da impotência, os galpões do inconsciente, sempre constantes em nos pregar peças, trapaças, armadilhas.

O beijo da vida originalmente não tem mau hálito. Aliás, do beijo é que se constrói o hálito da paixão. Com paixão, observamos um céu ardente sangrando estrelas. Sem paixão, perdemos o divino hábito da altivez, da sublimidade, da elevação ética de nosso reconhecimento e identidade, espelho da experiência viva de existir sem pastar, sem deglutir nossos próprios despojos e dejetos. Nada do que pensamos seria possível sem o ato de ler. É ela, a paixão de ler, que nos redime e nos converge ao melhor de nós mesmos. Pois esse melhor, repetidas vezes, deixa-se envilecer pelo adormecimento, abrutalhando a nossa sensibilidade, fazendo-a recuar ao mais sórdido dos sentimentos humanos, que é a indiferença.

Tudo isso pensei numa manhã chuvosa, no intervalo entre leituras a que me vejo atado, descrente da raça humana e de sua capacidade de reagir aos moinhos da memória de paralisias. Se não trago no nome o perfeito alexandrino de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, ao menos me encaixo numa redondilha maior, verso de inspiração medieval, com as sete sílabas métricas em que são peritos nossos fabulosos poetas do cordel. O que eu queria era estender infinitos à serena partilha de mundo do poeta Drummond na “Canção amiga” —

Eu preparo uma canção

que faça acordar os homens

e adormecer as crianças

— refestelando-me no credo alimentar de sonhos e na reanimação de esperanças, assegurados os direitos de homens e mulheres de serem felizes, com garantias de justiça, liberdade e cidadania plena.

E enquanto não me aposso do que ainda não me é possível, reavenho com acréscimos líricos uma certa “Nota de feira”: açúcar, arroz, feijão, café, farinha de trigo, farinha de rosca, macarrão, queijo ralado, biscoito doce e salgado, manteiga e margarina, gordura vegetal, fermento para pão e para bolo, ameixa, carnes, temperos, verduras, frutas, iogurte, leite, extrato de tomate, orégano e muito amor, que este, afinal, é o que, por aqui, anda mais em falta.