Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

Leis do sexagenário

 

Comunico aos que por esta folha resvalarem os olhos que, neste 7 de janeiro do ano da graça de 2007, o signatário da presente ingressa no seletíssimo agrupamento dos sexagenários. Cumprindo normas regimentais que a si mesmo se inflete, o mesmo signatário estabelece a constituição de leis a serem observadas por ele e por outrem (ou ôutrens) que com ele queira(m) manter relações cordiais e reconhecer legitimidades nos direitos e diferenças afins.

Em recente entrevista concedida a uma emissora de televisão regional, não sei mesmo a que propósito, fui surpreendido com a pergunta: você se considera um homem moderno? Embatuquei e nem saberia agora precisar o que respondi, definindo-me, contudo, como um animal sentimentalmente preso a determinadas convicções, a começar da verdade profunda nas emoções humanas, independentemente das épocas e das convenções. Se modernidade se confunde com conflitos bélicos, intolerâncias civis, militares e eclesiásticas, sectarismos ideológicos, venalidade na distribuição da justiça (política, social, econômica), desagregação dos valores, ruína e envilecimento dos indivíduos, indiferença e soberba ao drama dos mais fracos, além de outras equiparadas semostrações, logo e seguramente não serei paradigma de um homem moderno.

Humanista, idealista, um sofista sacrista de vista ruim, eu me batizo em nome das minhas crenças — parodio livremente uns versos por mim mesmo cometidos em livro por aí corrente, Os becos do homem. E em louvor de valores os mais recalcitrantes, nos quais permaneço acreditando, decreto, por livre e espontânea autonomia, as seguintes

 

LEIS DO SEXAGENÁRIO

 1 – Regulamentar as próprias rotinas, transformadas em leis de uma existência mais plena, não deixando escapar motivos de desconstrução das leis consideradas injustas

2 – Cumprir etapas e horários segundo as conveniências do esforço e justo empenho no que chamamos “felicidade”

3 – Impedir quaisquer mandatos de envenenamentos da alma, sob quaisquer pretexto, circunstância, precedente, acidente ou incidente

4 – Amar filhos e netos com a mesma intensidade com que se é por eles amado e respeitado

5 – Deixar legado de pureza nas relações humanas como herança mais legítima aos descendentes, pósteros e vindouros

6 – Desconfiar e esquivar-se de “tratamentos obsequiosos”, a exemplo de “tio”, “coroa”, “velho”, “vovô”, “chefe”, “patrão”, “doutor” e outras catervanices

7 – Só levar para casa aqueles desaforos considerados incontornáveis, a exemplo de impostos, taxas e emolumentos da burocracia oficial, sem os quais nenhum governo ou poder se pereniza com ou sem nosso consentimento

8 – Aplicar, em todos os quadrantes, situações (mesmo as mais constrangedoras ou vexaminosas), instantes, ocasiões, o célebre “jus esperniandi” — ou direito permanente e inalienável de espernear

9 – Manter vivas as crenças e expectativas até aqui acumuladas, justificadoras do estar na vida, na forma a mais integral para que cada um foi moldado a ser

10 – Assumir com discrição e dignidade um lugar na fila dos “idosos, grávidas, lactantes e deficientes físicos”, mas protestando contra as discriminações costumeiras, tão reconhecíveis quanto o olho nu de mariposas e taturanas

11 – Reagir aos concessivos espaços da chamada “terceira idade”, sobretudo se sobrevivido aos traumas da primeira e segunda marchas de desaceleração da vida humana digna

12 – Bater de frente contra todas as imposturas que cercam o início da senectude, desmascarando empulhações que fazem da velhice um paraíso de coitadinhos assexuados ou retornados à primitiva e insossa virgindade dos párias.

13 – Tudo fazer para conjugar as operações fundamentais (somar boas vontades, diminuir tensões/conflitos, multiplicar afetos/solidariedades e dividir sonhos/desejos/aspirações); afugentar verbos natimortos (assassinar, trair, dedurar, sucumbir...); evitar contaminar-se com verbos pronominais (apressar-se, aprisionar-se, acomodar-se, desmilingüir-se...), substantivos funestos (discriminação, preconceito, arrogância, exclusões...) ou adjetivos aberrantes (pústula, infame, egoísta, soberbo...)

Estas leis entrarão em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

 Claro que outras leis existem e outras ainda virão a ser proclamadas. Este sessentão aceita contribuições, inclusive dos ainda-não-lá-chegados. Farei todos os esforços para cumpri-las à risca e nisso contarei com a conivência dos pares e ímpares no terso concurso da tribo humana sobre a Terra. E quando chegar minha hora extrema (não sei se boa, se temerária), também “não quero choro, nem vela”. Quero uma fita cassete com o hino do Flamengo e do som primitivo dos trios elétricos de outrora, ao feitio do Tapajós, impondo o ritmo de um carnaval particular e ingênuo, quando a colombina Indesejada das Gentes certamente encontrará seu minúsculo pierrô com a casa desarrumada, papéis em profusão e a serenidade utópica de quem esteve sempre procurando fazer o seu melhor, com o sabor da terra-mãe na boca de parcos dentes, saliva seca e a confiança de que se mais não fez foi porque definitivamente não lhe foi possível.