Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

Esperanças!

                 Estamos em pleno caos — Jorge de Lima parodiaria Castro Alves no indecifrável Invenção de Orfeu. Encaramos um novo ano e, como todo ano que começa, obrigam-se nossas expectativas a confiar em mudanças. As empresas do ramo já não dão conta de seu ofício e nós, simples comboieiros da província, seguimos o cortejo porque é imperioso mesmo esperar melhoras, pois abaixo dos subterrâneos não temos mais como chegar.

O ano se vai e não deixa saudades, nem o que ora chega nos deixa muita farinha no saco — que já anda cheio de tantas eiras e beiras de sino e ossos para roer. Feitas as reformas imprescindíveis para a manutenção dos mesmos defeitos, o país se prepara, pela voz rouca de seu presidente, para o espetáculo do crescimento. Já andamos fartos de circo e da falta de pão (inclusive do espírito), mas não esgotamos ainda nossa capacidade de nos surpreender. As reformas geralmente penalizam os já fracos e ociosos aposentados, diminuindo-lhes os já decadentíssimos salários, permanecendo não tributando bancos e banqueiros, que financiam os precisados políticos em seus cargos e mandatos tão trabalhosos. Em outras palavras, pagam tributos os que recebem salário e permanecem isentos os que acumulam os lucros. É mesmo assim, assim mesmo: no Brasil, salário é renda e vultosos dinheiros dos bancos, não!

Deixemos para 2007 outros vexames: juízes pretendem prêmios de consolação e estímulo por ganharem tão pouco e tão muito trabalharem numa justiça mais ágil que aviões supersônicos — que, aliás, não pousam em aeroportos engarrafados. Aos congressistas restam os extras da média e ordinária fantasia de que vivemos no melhor dos mundos. Falar em média, já não somos os governos que dirigiam o país por meio de decretos-leis, mas com as permanentes medidas provisórias e pec's ao gozo e talante dos poderes de plantão. O legislativo não legisla, não parlamenta, não debate, não discute prós e contras. O judiciário não judicia, não jurisprudência, não promove modelos de eqüidade nos direitos de todos. Resta-nos assistir a um circo de cavalinhos, com cândidos deputados, senadores, magistrados, governantes e seus rostos cavalares rodopiando nas cadeiras de altos coxins. Os trabalhadores, sem partido, não têm quem defenda seus interesses. Os funcionários públicos, então, formam o rebanho dos bois-de-piranha no meio da malta de lobos enfurecidos.

Vivemos hoje novos ciclos de desestabilizações. Às funções públicas são reservados os mistos quentes-frios da servidão voluntária, vassalagem ou livre e espontânea coerção, assistindo-se a sucessivos episódios de desmoralização dos serviços públicos. Sufocam-se os proventos, engessam-se os méritos, promove-se a isonomia da miserabilidade, com os servidores do executivo (assim mesmo, tudo em minúscula) submetidos à consideração de cidadãos de terceira classe e o Estado como um senhor feudal, com atributos de suserania sobre as cabeças de seus vassalos e direito à noiva nas núpcias. É o caso, porém, de perguntar: quem é servidor público no Brasil? Somente os de carreira, com matrícula e toda a súmula de sucessivas humilhações? Mas e os bombeiros, os policiais, os serventuários da justiça, os médicos, os enfermeiros de hospitais públicos? E os professores, com seus vultosos vencimentos? Que dizer, então, dos burocratas, políticos, planejadores, economistas, os ministros, o próprio presidente da República, o que são esses sujeitos senão funcionários públicos porque prestando função pública, ainda que detentores de privilégios nunca suficientemente declarados?

De uma vez por todas, precisamos dar um basta aos sucessivos desrespeitos à ordem constitucional. Trabalhador é trabalhador, ainda que hoje (como ontem) não tenha partido que o represente ou defenda seus direitos. Há uma década, os funcionários públicos não se reajustam condignamente. O Estado brasileiro precisa parar de ser nosso maior devedor e furtar-se a seus compromissos. Débitos crescem de tamanho e proporção, sobretudo àquela nação desassistida de seus mais elementares valores e dignidade, submetida à coorte cada vez mais pífia de ricos e maus pagadores e de uma numerosa e inepta legião de tecnoburocratas que azeitam e nunca mudam a frondosa máquina-de-enganar-trouxa que se chama Governo Federal. Solapam e reduzem o espaço de nossa sobrevivência, mudam eslôgans, promovem mudanças de sofás das salas da vergonha e do despudor e nos deixam o espólio da administração de sobejos — quando os há.

Se ainda sorte houver, meu desejo é que 2007 seja um ano menos cínico. Para todos os brasileiros, inclusive banqueiros, sonegadores, corruptores e corruptados, tecno-burocratas, vendilhões de templos, especuladores da moral e tolerância alheia...