Ainda que nos precipitem

Jorge de Souza Araujo

 A nau do Apocalipse

 O sinal desceu dos céus em Santo Antonio de Jesus, sob a forma de um presumível meteorito. Entrevistada na tevê, uma camponesa centrou a base de suas crenças, hipóteses e desconfianças na sutil indagação: o fim do mundo já começou? Pelo sim, pelo não, o governador de Hotária por lá logo esteve, no rastro do cometa, anunciando obras à mão cheia para o povo apreciar. Mas foi com silêncio que lhe renderam homenagens o garboso senadorão e o neto deputadinho, intrépidos e barulhentos na colheita do Apocalipse para consumo externo e mudos e quedos no esconde-moita de escândalos domésticos, rasurando imagens límpidas desde as pirâmides da boa moral aos estragos no seqüestrado erário público, conforme notícias pouco edificantes publicadas em gazeta hotariana e revista nacional.
                    É este o mote que doravante cavalgaremos. Teria mesmo começado o Apocalipse Nau? A julgar pelas correntes de ar frio, entremeadas com a quentura dos últimos dias, parece que sim. O mundo encaminha-se para o seu final, e final melancólico, quando não tenebroso. Os donos do planeta estremecem pilares e colunatas da frágil embarcação terráquea, espalhando horrores de todos os quilates e todos os quimordes — e democraticamente distribuídos a todas as latitudes e dimensões. No Brasil, um irado presidente, desmemoriado de quanto aprofunda e perpetua o quadro desolador de desconformidades quanto à dignidade salarial dos servidores da República, increpa professores universitários na qualificação de irresponsáveis. Na ornamental e carnavalesca Hotária, vivemos no melhor dos mundos e, ingratos, nem agradecemos direito a nossos benfeitores pela dádiva de habitar o melhor Estado da Federação Planetária, com a saúde e a educação nos píncaros da glória excelsa e níveis estratosféricos na qualidade de vida e moradia e água e estradas e saneamento e segurança e renda — talvez até, dia desses, concedam-nos auxílio-motel, junto com a garantia de portentosos reajustes salariais a engordar a conta bradesca dos funcionários endinheirados.
                    O amigo/ a amiga que ora me avista com seu mirante telescópico, certamente lê jornais, vê e ouve a tv. Então será sabedor(a) de que 12 ou 16 novos milionários brasileiros ostentam com garbo o privilégio de freqüentar lista anual de revista especializada, onde rebrilham os mais ricos do seleto universo dos mais ricos do mundo. O curioso é que o jornalismo pançudo e gorjeteante que nos serve, não declina os nomes dos afortunados — o primeiro deles, um modesto banqueiro que, a essa hora, deve estar contabilizando nuvens e atmosferas —, pois, afinal, milionários (sobretudo banqueiros) também têm coração (e talvez gordas verbas publicitárias na mídia que informa, eleva e consola). O banquete iníquo da ausência de verdades entre nós não se faz de rogado, não indica ou presenteia, nem promove sorteios de brindes etc.
                    O fim do mundo já começou, sim — talvez há muito contemplando esfinges. Os roteiros apocalípticos passam também pelo sul de Hotária. Na Cidade R. do B., uma quadra de esportes radicais desafia o entendimento dos parcos de espírito, que nem eu, ocupando vistoso empreendimento da prefeitura na principal avenida do centro turístico, para desespero de Burle Marx que, da tumba inglória, deve estar estrebuchando de raiva e impotência. Sendo o prefeito um atual militante do PL, a expectativa é que, tão logo lhe seja possível, também faça erigir um espaço para esportes liberais. Dentre outros motivos porque, num país que absolve o coronel que ordenou a chacina de 111 indefesos detentos no Carandiru e deixa na geladeira da memória o governador vestido de ouvidos moucos e vistas grossas à monstruosidade, impor esportes radicais é dar vazão a radicalismos ordinários, demonstrando tão somente a alta prioridade de projeto absolutamente notável numa cidade que já tem tudo de que precisa e só reclamam os que acham que reclamar é ofício de desocupados.
                    Razão terá o cineasta Luís Buñuel, emoldurando o Discreto charme da burguesia com a iminência do Fantasma da liberdade. Neste último filme, aliás, todas as perversões humanas são acentuadas, culminando com festejos emocionais para assassinos confessos e prisão indormida para os puros de coração. Excluindo-se da ironia e sinceríssimo em sua demanda de proclamas de civilidades, o romancista peruano Mario Vargas Llosa, num encontro de escritores em Paris, reunidos para discutir e tomar partido contra a tortura no mundo, teria dito, placidamente: O que me importam as dores da tortura de outros, se varo noites de insônia, torturado por indagações sobre a existência?
  
                 Mas razão maior quem tem mesmo é a camponesa de Santo Antonio de Jesus, e desta vez sem lugar a dúvidas nem meteoritos: o mundo já começou a ruir e a se acabar. E seu final será marcado a fogo e cinza, temporais e bibelôs, fome, sede, deserto e violação. Sobretudo encenando a cera e o cerol das virtudes, arraias e papagaios definitivamente enterrados.


  
             P. S. (e crônica com P. S., se não for ineditismo, é rompante de escritor metido a sebo) — Aviso aos impossibilitados de me ascender, via correio eletrônico, que me informem da falta, que logo disponibilizo esta e outras para todos os efeitos leitores. Abraços.