Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

Pinochega!

 

Um simples passeio pelo dicionário do Aurélio nos revela distintos códigos significantes para a expressão “Pino”. Vai de “Prego de pinho ou cana usado por sapateiros” a “Peça que, na dobradiça, firma as duas asas e serve de eixo sobre que estas giram”. Tambem representa “O ponto mais alto”, “Auge” e “A prumo”. Desconheço a extensão complementar “chet”, mas trago comigo a firme convicção de que o nome completo — Pinochet — infligiu à soberania latinoamericana a mais sufocante determinação de obscenidade e truculência, chegando-se a mencioná-lo como o mais insultuoso palavrão, a “mala palabra” da sanha ignominiosa, o aviltamento do homem como “o único animal que tortura seu semelhante” — conforme salientou o amargurado romancista argentino Ernesto Sábato.
            Falam tanto no 11 de setembro novaiorquino de 2001 que nos esquecemos do chileno de 1973, quando tropas golpistas patrocinadas pelos Estados Unidos da América bombardearam o palácio de La Moneda e assassinaram “o grande menino Salvador Allende, que sonhou seu sonho mais bonito até o Advento do Apocalipse”. Lembro-me de uma visita do general Augusto ao Brasil. Saudado como libertador em alguns quartéis e palácios, mereceu discurso inflamável do então deputado federal baiano Chico Pinto, que distinguiu o militar andino com apodos tingidos de sangue e a nódoa das maiores humilhações impostas a povos e constituições. Agora, bastou morrer o ditador, ja nonagenário, e a hipocrisia de um cristinismo de conveniência quase o unge como santo.
            Não queria mais falar de sanguinários, todavia. Mas se Inferno houver, ou qualquer outro centro terapêutico onde purgar culpas sem remissão, torço para que o general Augusto lá encontre abrigo e lá dispenda suas grosseiras energias acumuladas em tantos e nefastos porões de crueldade, sem que nunca o esqueça a História, a fim de seus exemplos não sofrerem cópias de sucessivos enlutamentos. Milhares de compatriotas lationoamericanos pereceram sob o tacão generalíssimo e o estádio nacional de futebol em Santiago ficou macabramente celebrizado como campo de concentração mimético dos resplandores nazistas. Supultemos o general trucidador, mas vigilemos para que sua memória de opróbrios não se exile jamais de nossos sentidos distraídos. Não há motivos para festas nem celebrações. Afinal, o general foi abatido pela Natural Vingadora sem sequer conhecer os umbrais das masmorras que ele erigiu em louvor da suprema iniqüidade.

            De masmorras e iniqüidades, aliás, muito conhecemos por aqui, nos planos distritais, municipais, estaduais e federais — que para tanto a democracia de Eldorado é muito ancha, competente, voraz e anestésica. As duas principais cidades do sul de Hotária disputam paralelismos de irracionalidades (se uma mata, a outra, aleija). O Estado foi declarado de sítio do pica-pau roxo de vergonha (ou falta dela). A justiça goiana julga crime de morte após brevíssimos 21 anos. E a mortalidade infantil ainda nos reserva lugar privilegiado no pódio das disenterias morais. Quanto a mim, pobre bicho indefeso no sonho depois do sono, não é que fui acessado à cobertura do caviar da alta política, quase submetido à fúria do poderoso senador de Hotária, que só não se abateu sobre mim a socos e pontapés porque despertei a tempo de escafeder-me?
            Melhor será ingressarmos correndo em clínicas especializadas em distúrbios do sono ou buscar auxílio no riso, refrigério dos afligidos. Leio na seção “Comportamento” da revista “Istoé” número 1935, página 21, notinha sobre uma insólita cobrança: “Na cidade de Aachen, na Alemanha, uma mulher ligou para a polícia exigindo que um delegado fosse à sua residência e obrigasse o seu marido a fazer sexo com ela”. É o que dá não viver nos trópicos. Fosse entre nós, talvez a distinta esposa ligaria para pedir auxílio contra o sexo intermitente. Ou então reeditaríamos aquele famoso bordão humorístico da tevê dos anos 80: “Vai pra casa, Padilha!”