Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

Boas Festas?

 

Os de boa vontade poderão testemunhar meus esforços concentrados em ser ou parecer otimista, mesmo sabendo que votos de prosperidade sucumbem flagrantemente face ao cotidiano de absurdos que vivemos. Sei também que, a cada vislumbre do Natal (cada vez mais consumista, apesar dos tons melífluos da mensagem de natividade cristã), renovamos nosso estoque de esperanças projetadas na renovação carismática das grandes expectativas. Pelo sim, pelo não, fico com a imagem estrilada de uma celebração que escape do farisaísmo cretino dos vendilhões nos templos e reforme nossos costumes a um mínimo senso de restauração filosófica da data.
                Fatos existem para consagrar ou desmilingüir a fragrância de nossas expectativas — daí porque exultamos ou nos deprimimos diante de cada ciclo natalino. Nem bem fechamos o acelerado 2006 e o mundo permanece reeditando o dilúvio universal. No Brasil, as mesmas enchentes e mortes, os mesmos desbarrancamentos físicos, éticos e morais. E mais virão enovelar o horror, pondo à prova nossa lucidez e nossa coragem nesse mundo parodístico de sucessivos descaimentos. Lembro de um conto meu — “Avestruz faz aniversário” — publicado no livro Essa esquiva e dilacerada fauna, cujo protagonista-aniversariante faz viagens em torno de si, lastimando a voragem de agonias e os cheiros de morte lá fora. Angustiado com os cataclismos distantes, impotente ante os intangíveis desastres, a personagem joga a toalha: E quem não tem unha, roa a dos outros, roa o homem estendido na calçada, roa o terremoto na Ásia inteira.
                Deus, se quiser, me perdoe, mas ninguém me retira a hipótese de que terremotos, maremotos, avalanches e gerais massacres são a conseqüência direta do desequilíbrio ambiental ameaçando virar o mundo de ponta-cabeça. Bombas nucleares, mísseis de longo alcance, minas subterrâneas, guerras nas estrelas, efeito estufa, toda a parafernália fermentada, concebida (consabida) e expelida pelos donos do universo patrocina essa debacle que em breve carreará o Apocalipse para as profundas dos infernos — e nós todos com eles, pacificados em nosso conformismo. O bem comum das grandes potências enormemente se regala, deitado esplêndido na impunidade e no descompromisso com os outros (aliás, falar em compromisso com os outros, no sistema capitalista, é um rematado disparate). Os padroeiros da democracia-para-consumo-interno-e-endógeno, que atendem pela alcunha de Estados Unidos da América, além de responsáveis diretos pela maioria das hecatombes, recusam-se terminantemente a assinar o protocolo de Kyoto — que disciplinaria os usos ambientais de solo e águas, dentre outros regulamentos. Preferem o protocolo de Ohio (Ó Raio que vos Partam as Fuças). E lembrem-se, meus cândidos amigos, que imaginam que o Longínquo não nos ameaça porque Distante: o reeleito Cowboy do Ano, GWBush filho, mereceu da revista Time o seguinte parecer explicativo a propósito de sua reeleição: Bush mede o seu sucesso pelo número de inimigos que faz.
                Por aqui (lembram?), ainda neste 2006 que agoniza, ciclones desmontaram a imagem dourada de um Brasil sem traumas cataclísmicos, com rajadas de vento a 300km por hora, milhares de casas destruídas, milhares de desabrigados, tantos feridos, tantos mortos, bilhões de prejuízos. Em nossa região, o Apocalipse e o Anticristo também se juntaram as mãos e permanecem reduzindo a pó tanto as messes, quanto as vinhas. Alguns dos nossos se foram, desterrando-nos de nossos últimos anelos.
            Como então ser otimista, inúmeros, como eu, órfãos do papo-laranja-e-limão no cair de antigas tardes no Chico Lima? Se não impossível, será improvável o otimismo em tempos que nos nivelam às hordas selvagens a serviço do ocaso. Não sendo cínicos, como poderemos bordejar as farras, os festejos, as galas, sabendo que a miséria brasileira galopa para o esterquilínio e a visão de eunucos morais padece de glaucomas progressivos?
            Não sendo hipócrita, não direi que a todos desejo as tais Boas Festas e um Ano Novo tão largo e próspero quanto gordo em realizações e vida e saúde e paz e harmonia. Há muitos calhordas por aí pastando e de quem desejo enorme e alongada distância de meus sonhos. Não sei fazer simpatias, vestir branco, comer lentilhas, pular ondas no mar, nem levar louro na carteira para atrair dólares verdinhos. Aliás, nem mesmo sei o que sejam dólares, o amigo (ou amiga) aí, sabe?