Prioridades e prioridades

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Foi Otto Maria Carpeaux, cidadão austríaco que se tornou um dos mais argutos pensadores brasileiros especialistas em nossos investimentos literários e culturais, quem melhor exprimiu a angústia de estabelecer prioridades em países periféricos, indagando como afirmar a cultura literária numa nação de tantos contornos desagregadores, tantas carências, espoliada e gasta em suas fomes eternas de saber e provisão alimentar?

Vejo-me pensando essas nesgas ao testemunhar o justo rigor das críticas por tanto atraso (e não só dos vôos, mas das políticas público-privadas para o setor) nos aviões e aeroportos de carreiras desabaladamente rumo ao caos. Pondo-me no lugar dos muitos sitiados nas estações aeroviárias, de fato percebo o quanto é fácil constatar os repetidos gestos indignados justificados pela noção de abandono e sensações de desrespeito a direitos elementares de quem precisa se locomover com rapidez, conforto e presteza ante a frustração da contrapartida financeira previamente desembolsada antes dos desmontes.

Sem dúvida, o governo age com a lentidão das tartarugas esquizofrênicas, impotente e ineficaz ante sucessivos impactos elefantinos na loja de louças avionárias. E o que vem de muito tempo se arrastando ameaça aprofundar roteiros de ansiedade, acarretando outros tantos descarrilamentos. Certamente, o problema impõe medidas na velocidade da luz. Mas ao pensar sobre prioridades seria também oportuno ampliar o conceito delas, estendendo-as às outras muitas que há anos-luz igualmente cobrem de opróbrio os muitos delas necessitados.

Basta acompanhar os problemas que devastam a realidade brasileira na contemporaneidade dos jornais diários, que expressam diariamente nossos diários desalentos. Isso mesmo, meus atentos parceiros de observação do real  de betoneira. Os problemas brasileiros sem solução nem prioridades são mesmos distinguidos pelos pleonasmos e tautologias. Vivemos repetindo tão duras realidades, a ponto de confundirmos acontecimentos e notícias ultrapassando o tosco viés das datas e dos calendários.

Repasso os olhos num dado jornal, como este A Tarde da terça-feira, 21 de novembro deste 2006 coalhado de impropriedades. Nele me deparo com a nota de estupor: a Fundação Oswaldo Cruz atesta a incidência de uma leptospirose mais grave e mais letal, causando insuficiência respiratória e sangramento pulmonar, decorrentes do lixo acumulado nas ruas de Salvador. Em Tanquinho, expansão afetiva e geográfica de Feira de Santana, famílias protestam contra o lixão comunitário que lhes sonega o mínimo minimórum da sanidade a todos garantida em leis inúteis. A mesma edição do jornal impetra alertas contra as chuvas agravando doenças, contra a banalização da morte vitimando idosos por descuido de identidades, contra as Cestas do Povo fechadas por um governo estadual deficitário até de vergonha na cara, contra um Rio de Janeiro madrugador de tiroteios e balas extraviadas, contra a lotação de cadeias, como a de Amélia Rodrigues, de onde detentos escapam pelas frestas do horror no rumo da expansão de outros horrores.

Na carta dos leitores, uma milionésima criatura protesta em vão contra a ineficiência da justiça, esta perene e fantasmal senhora hidratada de pompa e descompromisso. Outro queixume exala contra o esquecimento de poetas como o canavieirense Flávio de Paula, exímio sonetista que completaria 106 anos se vivo pudesse contemplar o nó górdio da cultura em sua terra. A reportagem geral destaca a marcha da Consciência Negra pela reparação e igualdade de direitos e representação na imoldada sociedade brasileira de tantos olvidos. Na página de destaque nacional, uma nota de internacional constrangimento: paladinos da democracia made in Coca-Cola, os vocacionados Estados Unidos da América já eram golpistas bem antes de 1964, tão logo assumira o poder o líder republicano legitimado constitucionalmente João Belchior Marques Goulart, cuja queda ainda hoje causa constipios em hostes saudosas de autoritarismos. Finalmente, na página de esportes do A Tarde de 21 /11/06,a festejada classificação do Vitória (à Série B do Campeonato Brasileiro, imaginem !) contrasta com a situação do Esporte Clube Bahia,que agoniza patinando nas urzes da Terceirona.

Assim, meus humores, só me ocupei de prioridades nesta fadada crônica. Reflitamos sobre elas para além dos céus de brigadeiro dos aviões cortando distâncias e levando nossos patrícios a seus destinos, sãos e salvos. E não perpetuemos distância ainda maior entre os que podem viajar de avião e aqueles que só podem vê-los da altura supersônica semelhante à quilometragem do abismo que separa uns de outros em complexos hostis de extremidades compartimentais do luxo e do lixo.