Fenômenos

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Extenuado por tantos furúnculos no espírito, talvez devesse o cronista somente tratar de temas amenos, inda mais se inspirado fosse na escala árcade da busca obsessiva de harmonia e equilíbrio. Mas os fatos nos atropelam e fazem abortar qualquer esforço de paz e desarmamento de inquietações. Basta ter olhos para ler e ouvidos para assuntar.

Tudo por conta das reincidências nos comportamentos de colunistas, observadores e praticáveis políticos e administrativos acirrados pelo resultado das eleições e estimulados pelo cio da alta voltagem de seus empenhos e frustrações. São, por isso mesmo, fenômenos equivalentes aos cataclismos e hecatombes dissolvidos no éter do ridículo e da panacéia. Minha primeira ricordanza é quanto a homenagens e opróbrios. Lembram-se da morte do Primeiro-Filho do suseranocapitãogeneralgovernadorsenador de Hotária, quando se desencadeou um surto de sentidíssimas elegias de concreto e símbolo, a tudo denominando LEM, de aeroporto a centros de convenções, colégios-modelos, municípios, viadutos, avenidas, parques, somente faltando banheiros públicos na sanha homenageadora? Pois naquele transe, enlevando-se de oportunismo garimpeiro, a câmara de vereadores de Conceição do Coité alterou o nome da Avenida João Durval Carneiro para ALEM. A designação anterior merecera voto unânime da mesma câmara em passada legislatura, mas, da homenagem ao opróbrio, a operação mudancista percorreu travessias que insultam a mais recalcitrante das inteligências, cabendo ao futuro dizer se a avenida que margeia a Rodoviária de Coité um dia voltará a ser o que antes fora, uma vez que João Durval voltou ao pódio como senador amplamente vitorioso.

Deixemos os mortos e concentremo-nos nos sobreviventes. O alcaide itabunense, um bem tombado do modelo de fazer política com um olho no burro e outro na carroça, manifestou sua estranheza e decepção quanto ao resultado do pleito para o governo do Estado (que soterrou carneiros, junto com pesquisas, cravos, ferraduras, ameaças e intimidações), lembrando ao novo governador que a megalomania deve ser a-partidária. Quer porque quer a ereção (que no governo que finda não elevou meio metro de altura em área construída, apesar de prometida a conclusão da obra, pelo mesmo alcaide, desde há dois anos) dos tais teatro-com-800-lugares e centro de convenções para outros 1.500.

Só não chamo abjeto a esse tipo de oportunismo pós-moderno porque o caso ultrapassa de muito a seara do patético, nadando de braçada rumo aos ridículos que fizeram a glória de Stanislaw Ponte Preta e sua série de Febeapás. Assim, nem Zé Pidão imaginaria possível subsidiar delírios de grandeza. Uma cidade sem biblioteca, desaparelhada de seus teatros vivendo à míngua, sem centros de convivência social, sem prestigiar a cultura, condenando seus artistas a estágios paralelos da quase-mendicância, arrisca-se a inscrever no livro dos recordes anedóticos um percussivo e bombástico conjunto de elefantes brancos, cuja suntuosidade se exprime exclusivamente em números megalomaníacos. Pode ser o caso de indagar (já que perguntar continua não ofendendo): numa economia em crise e, como alardeiam, com a prefeitura sem recursos, quando (ou se) teremos 800 expectadores num teatro sem produção local apreciada pelos nativos? Quando (ou se) lotaremos o centro de convenções para debater que eventos?

A 25 quilômetros ao sul, na cidaderomancedobrasil. o caos não é lá muito diverso, mas certamente é mais catatônico. Revoltado com o resultado das eleições, o alcaide mostrou-se ainda mais diminuto, demitindo toda uma escola municipal (direção, professores, funcionários) no distrito de Inema, não poupando sequer um humilde servidor esperando os três últimos meses para se aposentar. Se isso não é escândalo para atuações da Justiça Eleitoral (que só cuida do processo, não vigia ilícitos nem descalabros, não é?), ministério público, câmara de vereadores, imprensa, rádio, tevê, clamor público, outras zonas da meritíssima justiça, talvez o senhor bispo possa acolher os quantos queixumes, sei mais, não.

A cidaderomancedobrasil cuida só do turismo? Então, está certo, porque da saúde não dá pra falar um milímetro, uma vez escorada no auxílio-funeral de suas cautas ações. O prefeito renunciará em proveito da filha? Ele, que há muito já renunciou a governar, deve estar amadurecendo a idéia genialmente concebida nos celeiros da imaginação popular que lá o plantou, com o amparo pífio de uma caolha jurisimprudência. Como explicar, se a blindagem publicitário-festejadora (em jornais, rádio e tevê ao alcaide) assim o permitir, a vocação turística da terra da Gabriela se a Central de Turismo — aquele belvedere instalado ali ao lado do oitão da matriz de São Sebastião, próximo ao restaurante mais famoso e ao hotel-referência no centro da cidade — virou valhacouto de lixos e dejetos e prospecto do mais antitético cartão postal?

Por entre todos os modelitos acima referidos, as explicações permanecem óbvias: Fenômenos!