Penúltima Carta da Província

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Senhor Presidente:

Por conta do que assisti nas três (das quatro) entrevistas televisivas concedidas após a eleição, deixo de consignar aqui o ulterior tratamento de Vossa Excelência Imperial e sigo guiado pelo Vossa Excelência correspondente à liturgia do cargo e ao respeito que se deve tributar à vontade da maioria. De fato, nessas últimas aparições pós-pleito, Vossa Excelência me pareceu bem mais maduro e experimentado, talvez em função dos tantos reveses que ora melhor assentam com a humildade da glória sem as máscaras do triunfalismo oco e estéril.
        Bem sabe a Excelência Vossa como o triunfo tem ressaibos de inutilidade se não se fizer acompanhar da indispensável mão estendida da concórdia. Isso Vossa Excelência fez e muito bem soou a meus ouvidos afligidos de tanto ruído, o eco caótico dos últimos meses doendo mais que bicho do pé queimando em fogo brando. Não importam rancores de derrotados, nem milenarismos de ocasião dos que se sufocaram em seus próprios desastres. Agora é reorientar caminhos e palmilhar com sandálias de bronze as responsabilidades ilimitadas de uma anatomia de paz para uma nação que sangra, submetida aos riscos de fósforos de nesgas de esperança dissolvendo-se no éter das muitas indiferenças.
            Sua vitória, Presidente, muito decorreu da confiança dos pobres numa redenção ainda que tímida e subsidiária. Os tantos milhões abaixo da linha da miséria, os outros tantos milhões alimentando-se de vácuos e disenterias, os sucateados sistemas de saúde, educação, saneamento, segurança, previdência, habitação, dinamitados pela cantilena de superávits pavimentando a nossa inércia falimentar de sonhos, tudo isso lhe cai novamente aos ombros como um comandato de chagas. Vossa Excelência bem o disse: não pode mais errar. Não pode mais voltar as costas às almas penadas de nosso desenvolvimento econômico e social. Seja humilde e incorpore os sinais de boa vontade dos outros pleiteantes. A bolsa-escola de Cristóvam Buarque, por exemplo, é real instrumento de estímulo à cidadania. Já a bolsa-família (se perenizada como rio de assistencialismo) pode não passar de fonte de inércia e vício se não se complementar com a bolsa-emprego, a dignidade dos ofícios do trabalho como um valor social agregado à auto-estima de cidadãos livres.
            Como sabe Vossa Excelência, incoerência, quando não mata, aleija para sempre. Seja coerente com os quase 59 milhões que o repuseram no comando supremo de nossos destinos. O projeto de nação ainda dá tempo, Presidente. Livre-se de partidários e partidarismos contaminados pela amoralidade da vocação autofágica e de projetos do eterno poder, mas livre-se também dos que se locupletam na farra dos lucros grosseiros para os mesmos bolsões da riqueza infecunda. Devolva ao povo brasileiro o mesmo voto que dele Vossa Excelência mereceu e ora de novo usufrui. Não vote nulo, Presidente, porque anular seu voto no povo é como votar no branco que anula queixas, causas e efeitos, gerando uma cidadania renovadamente acéfala.
            Vossa Excelência disse muito bem que os ricos sabem se defender porque, donos das mídias e de todos os recursos da falsa empostação de voz, são atores efêmeros de densas cortinas de fumaça. Cometem os crimes mais corriqueiros e nunca são incriminados porque sempre inocentes à luz da convenção aliciadora dos conformismos. Sartre dizia haver muito mais excremento num coração burguês do que podia supor a nossa vã ignorância. Muito mais cético e cínico, Blanchou, personagem de Balzac na Comédia humana, concluiu que a Virtude não passava de uma morta a fome e a frio, num casebre imundo, perseguida pela Calúnia, ganhando salário miserável e tida como louca, excêntrica ou imbecil.
            Entre tantos caminhos, Presidente, escolha o que o redime aos olhos dos que verdadeiramente ainda permanecem acreditando. E faça seu definitivo consórcio com a Nação, a ela ligando-se — não de forma paliativa como os programas ora em atividade, justos e necessários, mas efêmeros, precários, provisórios, facilmente manipuláveis pela má consciência — na saúde que liqüida a doença, na educação que aniquila a penúria, na cultura que liberta os opressos, no trabalho que provê a cidadania, enfim, no verdadeiro desenvolvimento que não nos suga a linfa de viver e antes nos reserva a saudabilidade da alegria generosa que nos faz olhar-nos não como esfinges a contemplar, mas como homens e mulheres definitivamente assumindo sua humanidade.

Cordialmente, seu provincianíssimo

 Pedro Kilkerry Militão dos Sonhos