Jornal do Dia

 Existe uma nação de homens e mulheres emparedados em seu leito de agonia. Resistem à morte que lhe urdem forças singulares de um amargo destino. Seu desenlace não os ameaça apenas, ao seu corpo plural, mas igualmente alcança uma legião de órfãos paralisados em sua patética comoção. Há um par de meses essa margem dolorosa se arrasta. Os pacientes resistem, apesar do corpo gasto e enfermo, corpo quase terminal em sua impaciência. Controvertidos, homens e mulheres interrogam-se sobre o futuro, questionando e invectivando-se quanto ao porvir. Médicos e enfermeiros fingem que se debruçam sobre os pacientes. Políticos alvoroçam os corredores. Os místicos fazem imprecações. Seria mesmo bom que homens e mulheres, a nação de homens e mulheres recuperasse a saúde, o vigor físico e a confiança e consciência de luta.

Penso e me comovo e me dissolvo no sentimento dessa nação de homens e mulheres afligidos. Sou, como quase todos, um pobre bicho sentimental que me descabelo de angústia por acompanhar tão longo cortejo de ansiedades. Já não sei rezar, desaprendi o caminho de Deus, perdi o cacoete de orações e preces. Tenho hoje uma couraça duríssima de tensões e depressões de variada procedência. Mas sou este bicho sentimental que também sofre a desídia desses dias e rezo e oro, ao meu modo, pela nação desassistida de homens e mulheres abatidos em sua mínima dignidade antropo-sociológica.

O que será desse país frágil, vulnerável e imaturo em suas instituições políticas, se sucumbe a nação de homens e mulheres emparedados em seu leito de agonia? Lembro-me de equívocos históricos recentes e doloridíssimos. E associo ciclos de orfandade nossa de todo dia, galvanizados em figuras prontas como Getúlio, Juscelino, Jango, Tancredo... políticos do ancien regime, marcados pela solidão do poder. Getúlio encarnava o pai de uma nação duplamente faminta e analfabeta, sinceríssima em suas sensações e afetos. Para quem se alimenta de mitos, o velho GG, com seus porões estadonovistas, embora, seu batidíssimo “Trabalhadores do Brasil”... era forno de mel e esperança. Juscelino, Jango, Tancredo — guardadas as proporções — representam-se herdeiros da mística populista. Um similar discurso paternalista, uma mensagem massificada de esperança e glória, um misto de fala dirigida a Deus e ao Diabo, ao capital e ao trabalho. Sem o varguismo caudilhesco, embora, mas com o cabedal da fala dirigida ao coração e à alma populares, sabendo explorar o amplo sentimento de orfandade do povo brasileiro (essa nação carente de proto-pais, assim como de pão e de afeto), Juscelino e Tancredo viraram mártires, santos da frágil democracia nativa.

A nação de homens e mulheres emparedados em seu leito de agonia vive hoje uma letargia septicemizada, de pathos compreensível. E não pensamos outra coisa mais grave que nos aconteça senão essa desesperança generalizada, essa deserção quase sem limites quanto aos rumos do Brasil. Tudo parece obscuro e fumacento, típico de sistemas oclusos, onde não sopra oxigênio da transparência e de onde medra a ciranda das especulações e dos fuxicos. Parece que nos aproximamos perigosamente de um espírito fúnebre. A nação parece estertorar. Mas não devemos nos entregar a esse mister sombrio. Há que afirmar sempre o Eros. Ninguém menos que Sade (quem diria!) nos disse, um livro, que a melhor forma de nos familiarizarmos com a morte é associá-la a uma idéia libertina. Em verdade, precisamos de uma provisão erótica como forma de resistir ao aniquilamento em curso. O Eros nos devolve a resistência de uma nação nova de homens e mulheres renovados em suas lutas e conquistas. Vida longa, pois, para os socialismos democráticos. Vade retro aos golpes, inclusive os civis que, volta e meia, ombreiam-se ao nosso pobre cotidiano político.

Enquanto a nação se deixa abater, avolumam-se os apetites, especulações, ambições megalômanas, os apetites se aguçam, os pequenos despotismos grassam que nem pequenos plantios de corrupção no quintal. Não era à toa que o filósofo Diógenes, na Grécia antiga, procurava em vão, com sua lanterna, um homem honesto. Tarefa difícil a de Diógenes. Difícil tarefa também a de homens e mulheres, numa nação desassistida, reagirem ao letargo dos cotidianos. Que o exemplo dessa dura provação, de homens e mulheres nacionais em sua tragédia diária, nos sirva de alimento e grito: para longe todas as misérias, para longe todas as torpezas de um sistema social que não pode mais continuar vingando e excluindo a vida nacional participativa, ativa e culta.