De servos, alienados e indiferentes

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Se você me lê no sábado, então até amanhã!; se me lê no domingo, então será hoje. Esqueça os traumas, obusteça-se de sonhos, alimente-se de idealismo, resista à desistência, livre-se da inação. A Cidade, o Estado, o País que todos somos ainda precisa de nós. Não sucumba aos nós dos conformistas, nem dos desesperados (que, etimologicamente, significa os sem esperança). Não se aprisione aos preconceitos, mas exercite a saudável disposição para a luta que dissolve todos os obstáculos e adversidades.

Em dia de eleição sempre me lembro de um amigo, o poeta de cordel Minelvino Francisco Silva, que envergava terno e gravata para cumprir um direito e um dever de cidadania. Não sendo Minelvino, vá de bermuda declinar os nomes da sobrevivência ética por meio da pressão de números na urna eletrônica. Pode até murmurar protestos ou tapar o nariz na cabine indevassável. Mas não deixe de confiar em si mesmo, transferindo aos de sua eleição os votos de fé e dignidade nos destinos da pessoa humana entre nós.

Na hipótese contrária veja aqui em que categoria você se enquadra: entre os servos, os alienados ou os indiferentes?

 Os Servos

Não é novo que muitos de nós têm a vocação de servir./Não falo de garçons, cozinheiros, mordomos ou copeiros./Falo dos que carregam consigo o estigma da servidão profissional./Aqueles que auto-patrocinam o decaimento moral em benefício do topo do poder./Eles comem as migalhas, mas não se importam./São os vassalos, asseclas, quebra-facas, capachos, puxa-sacos/E mais uma multidão de nomes que eles próprios sequer conhecem.//Os servos perderam totalmente qualquer vestígio de auto-estima./Vivem em função de seus senhores, do ar que respiram, das dores que sentem./Há muito são ilustres desconhecidos para si mesmos./Não dispõem de audácia de raciocínio, pureza de intenções/Ou legitimidade de interesses. Apenas servem./Desconhecem outras maneiras de viver a vida,/Objetos da sujeição ao confortável das opiniões medidas.//Presas das várias formas de regime fechado, da ditadura da mídia/À complacência do que diz a tv em sua referência obrigatória,/Ao feitio autoritário e autocrático dos que fazem o gosto do governante de plantão,/Os servos não pensam porque já recebem um pensamento único/Prontinho para ser exercitado nas ocasiões convenientes./Em compensação, são desprovidos da capacidade de sofrer./Como perderam totalmente a identidade, é fácil para eles não sentir nada./Também não sonham, nem amam, só odeiam os inimigos alheios./E talvez nem morram um dia, já que passaram toda a vida sem percebê-la.

 Os Alienados

Há como distinguir os que se vestem nus dos que se desnudam vestidos./Uns têm a pele varrida de marcas, a sola dos pés como sapatos de múltiplas jornadas./Outros trazem mãos calosas, dedos grossos, lábios que pendem uma saliva cheia de fuligem./Uns mordem o couro curtido do tempo como se se alimentassem de estrelas./Outros cercam a desesperança e a golpeiam de morte, como a um animal na caça./Uns nunca suspendem o trabalho, nem quando arreiam o próprio corpo para esquipar a sobrevivência./Outros cavalgam nuvens, ferrando as sombras dos desânimos com papel timbrado de batalhas ancestrais./Uns, ainda, se deitam com o crepúsculo e acordam com a aurora, sempre tendo parcerias com o masculino e o feminino de suas próprias forças./Outros, por fim, seqüestram riscos, laçam sonhos e põem freio nos dentes e relinchos dos desincentivos, desestímulos, desmotivações que, a cada hora, espreitam os passos no eito./Uns e outros, no entanto, se separam quando chegam ao limite./Então alguns se descobrem seduzidos pela não-resistência./Agora divergem na maré e formam um bloco sólido de capitulações./São esses os alienados, os que perderam a fé em si mesmos: descalçam os sapatos, afinam os dedos, pastam no tempo, entregam-se ao corte no tronco./Banqueteiam-se na desistência, na leseira e amorfia de um nada-fazer feito chuva imóvel./Definitivamente entregues aos lixos de uma passividade que os anula, os alienados só servem aos demônios e por eles são servidos./Tudo em nome da desonra, da falência na auto-estima, da vitória, enfim, dos que só acreditam nos infernos.

 Os Indiferentes

Os verdadeiros indiferentes são os seduzidos pela estupidez./Antes, apaixonados pela ação de ignorar, desenvolvem ritos de dissimulação e alheamento./Não são os que ignoram os ignorantes, estes apenas desconhecem as coisas do saber formal, mas trazem consigo seus próprios sabores./Os verdadeiros indiferentes pastam sua ignomínia por palácios e almofadas, tapetes e coquetéis./Gostam porque gostam de ignorar, iluminados pela perversão de esconderijos múltiplos./Ignoram a ignorância dos excluídos, vampirizam-lhes as energias e riem à socapa no conforto de suas vilezas, no apanágio de suas conveniências./Os verdadeiros indiferentes, na verdade, desprezam o conhecer, usando-o como lhes convém./Eles sabem o que se esconde por detrás do manto de agudezas negligenciais./São poderosos e sólidos em seu parasitismo, manipulando saberes sem sabor e humana idade./Subvertem a ordem do caos para nitrir açúcares nos próprios corpos, enfermos sedentos da própria urina./Ao final dos tempos, ainda armados com mordaças e cintas-ligas, recolhem as bolsas cheias de omissão e proferem, como perros ensandecidos na paixão da indiferença:/Não sei,/Não quero saber e/Tenho raiva de quem sabe.