A omissão e o voto

Ainda que nos precipitem   

Jorge de Souza Araujo

 

Ninguém melhor que alguns de nossos antigos para melhor vislumbre e alcance futuro das idéias e das formas de pensar. E ninguém mais adiantado ao seu tempo que o padre Antonio Vieira, jesuíta nascido em Portugal e tornado o mais brasileiro de nossos pensadores nos tempos coloniais, aquele que mais contundentemente testemunharia e acusaria muitas das nossas mais graves penas. Dezenas de sermões vieiranos evidenciam uma extraordinária atualidade, quase proferidos (e certeiramente verticalizados) em nossa contemporaneidade, tal a sorte de coincidências que apresentam, a exemplo do Sermão da Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, de 1640, pregado na Igreja da Misericórdia, em Salvador.

Como estamos em vésperas de eleições e como cabem umas tantas reflexões acerca do importantíssimo gesto de votar em representantes legitimados por nossa vontade, nada mais natural que a presença aqui do padre Vieira e trechos mais agudos de seu Sermão da Primeira Dominga do Advento, declinado na Capela Real, em Lisboa. Os sermões do Advento são peças retóricas de advertência aos cristãos sobre suas culpas, face ao Apocalipse, o derradeiro chamamento à Razão e ao Juízo dos fiéis ante a definitiva exclusão ou graça. Neste, de 1650, Vieira admoesta autoridades temporais e eclesiásticas (inclusive o Rei e o Papa) sobre os pecados da omissão e do voto, momento dramático que assinala a separação identitária entre bons e maus e as conseqüências de seus atos na vida das pessoas e ao arbítrio de Deus. A corrupção do voto, para Vieira, será ato inaugural e conseqüente de sucessivos desmazelos, que o eleitor carregará para sempre como pecado da responsabilidade omissa e fraudulenta, pecado punido com a exclusão do Paraíso.

Cedamos, pois, a palavra ao padre, que melhor esclarece o aqui apenas rasuramos em nosso tatear:

Examinem muito escrupulosamente suas consciências, e olhem a quem as comunicam; considerem muito devagar as suas obrigações, que são muito mais estreitas do que ordinariamente cuidam; inquiram muito de propósito sobre os danos públicos e particulares (...), e vejam, pondo de parte todo o afeto, se suas orações, ou suas omissões, podem ser a causa.

(...)

O último pecado e a última disposição por que se hão de condenar os precitos, é a impenitência final; e a impenitência final é o pecado da omissão. Vede que coisas são omissões, e não vos espanteis do que digo. Por uma omissão perde-se uma inspiração, por uma inspiração perde-se um auxílio, por um auxílio perde-se uma contrição, por uma contrição perde-se uma Alma; dai conta a Deus de uma Alma, por uma omissão.

Desçamos a exemplos mais públicos. Por uma omissão perde-se uma maré, por uma maré perde-se uma viagem, por uma viagem perde-se uma Armada, por uma Armada perde-se um Estado; Dai conta a Deus de uma Índia, dai conta a Deus de um Brasil, por uma omissão. Por uma omissão perde-se um aviso, por um aviso perde-se uma ocasião, por uma ocasião perde-se um negócio, por um negócio perde-se um Reino: Dai conta a Deus de tantas casas, dai conta a Deus de tantas vidas, dai conta a Deus de tantas fazendas, dai conta a Deus de tantas honras, por uma omissão. (...) por isso mesmo são as omissões os mais perigosos de todos os pecados.

A omissão é o pecado que com mais facilidade se comete, e com mais dificuldade se conhece; e o que facilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A omissão é um pecado que se faz não fazendo.

(...)

Vota o Conselheiro no parente, porque é parente; vota no amigo, porque é amigo; vota no recomendado, porque é recomendado: e os mais dignos e os mais beneméritos, porque não têm amizade, nem parentesco, nem valia, ficam de fora. (...) Miserável é a República onde há tais votos; miseráveis são os Povos onde se mandam Ministros feitos por tais eleições; mas os Conselheiros que neles votaram são os mais miseráveis de todos: os outros levam proveito, eles ficam com os encargos.

Se o que elegestes furta (não o ponhamos em condicional, porque claro está que há de furtar), furta o que elegestes e furta por si e por todos os seus, como costumam os semelhantes; e Deus há-vos de pedir a conta a vós, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles roubos. (...) e vós haveis de dar a conta a Deus, porque o vosso voto foi causa de todas aquelas injustiças. Oprime o que elegestes os pobres, choram as viúvas, padecem os órfãos, clamam os inocentes; e Deus vos há de condenar a vós, porque o vosso voto foi causa de todas aquelas opressões, de todas aquelas tiranias. Matam-se os homens no governo dos que elegestes, arruínam-se as casas, desonram-se as famílias, vive-se como em Turquia; e vós o haveis de ir pagar ao Inferno, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles homicídios, de todas aquelas afrontas, de todos aqueles escândalos. (...) e vós haveis de penar por isso eternamente, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles sacrilégios, de todas aquelas impiedades, e da perda irreparável de tantos milhares de almas. Estas são as conseqüências da parte do indigno que elegestes.

São pesadas e pesadíssimas conseqüências estas? Pois todas elas nascem daquele voto ou daquela eleição de que vós porventura ficastes sem escrúpulo, e de que recebestes as graças (e talvez a propina) com muita alegria. 

(23 a 25/9/06)