Ainda que nos precipitem

Jorge de Souza Araujo

 Morrem gatos na Áustria

 Em meus devaneios de idealismo abstrato, há trinta anos passados, percorri olhos e coração da cena dramática e comediográfica, primeiro, com o Teatro Estudantil Itabunense, dirigido pela brava guerreira Tereza Gomes Ribeiro, a Terezão, depois, no Teatro de Máscaras, em Salvador e, finalmente, de novo em Itabuna, como ator e diretor do Grupo de Teatro Sempre, quando tive a oportunidade de montar espetáculos com entusiasmados novatos e veteranos, em especial, a doce Candinha Dórea, que recentemente nos deixou.
                    Vem daí a lembrança do nome de uma peça de Pedro Bloch, Morre um gato na China, que reproduz nossa confortável indiferença ante o que acontece distante de nós, de preferência, a centena de quilômetros de nossa comoção. A analogia veio a propósito da mortandade de gatos (ao que me lembre, quatro) na Áustria, vitimados por ingestão de frangos doidos, aves gripadas, para melhor sermos exatos. Os pingados gatos austríacos, sacrificados pelo insidioso vírus, representam preocupante extensão. As aves contaminadas e prestes a morrer não afetam apenas a economia dos países atingidos, mas já ocupam cabeças e corações não-dementes, temerosas que o surto também chegue aos humanos.
                    Febres, endemias e epidemias, correntes no mundo, são fatos a que nos vamos acostumando perigosamente, e com espantosa regularidade. Dragaram o meio ambiente do planeta em circunstâncias criminosas, queimaram matas, sufocaram rios, mares e lagos, tanto fizeram que houve a separação da humanidade com a ecologia do cosmo. Agora, vamos aos frangos e demais criaturas avícolas, depois aos gatos, aos cães, cavalos, ovelhas, cabras, bodes, carneiros e talvez, mais adiante, toda a escala animal inscrita na arca de Noé. Quando finalmente chegarmos ao bicho homem (a que, aliás, já chegamos, e há muito tempo), contaminado por um sem-número de afecções (as morais, ele já as tem de sobra), talvez percorramos a quimera de interromper o ciclo de arruinamentos e assim tenhamos um meio ambiente (não pela metade, como indica o atual curso das derrotas) por inteiro.
                    E pensar que houve um tempo em que cães e gatos só nos inquietavam em eventuais surtos hidrofóbicos. Vacinados e banhados, contudo, não significavam qualquer ameaça. A não ser pelos envenenamentos provocados por outros humanos que não fossem os seus donos. Nunca fui de muito conviver com gatos. Aquele esquisito ronronar com que demonstram suas afetividades sempre me apavorou. Mas os cães, ah, os cães... Tive um sítio em Santo Amaro e para lá cheguei a levar perto de 20 deles, geralmente cães fujões, expatriados de origem e pouso, todos do mais absoluto pedigri de vira-lata autêntico. Alguns morreram acometidos de verminose, outros foram laborar noutras freguesias, outros, ainda, dispersaram-se pelas redondezas de uma vida rural acanhada e profusa.
                    Mas houve um dia, um cão (aliás, cadela), que para sempre me instilou expressões sentimentais de covardia e remorso. As circunstâncias de sua morte foram duras demais e minhas motivações até podem ter sido nobres, durante o transe e muito depois, acarretadas de conflitos e dramas de consciência. Sei que, do episódio, nunca me recuperei totalmente. No Pontalzinho, em uma manhã de domingo, a cachorra alazã, de rabo cortado, surgiu do nada, ganindo e babando. Arranhava a porta da frente, como a pedir socorro. Tinha sido envenenada, enganada pela famosa bola, o bolo de carne com formicida (chumbinho existiria em 1971?) que lhe aplicara algum passante indignado com seus latidos. Ana Alice, minha mulher, esperava nossa filha, Izi, que nasceria meses depois. Dilacerado entre os ganidos da dócil cadelinha, a ignorância de seu mal e o temor de contaminações ruinosas à saúde e vida dos entes queridos, deixei o animal à porta, assistindo, aflito e pusilânime, à sua lenta agonia e morte tão certa quanto dolorosamente chegada.
                    Difícil recompor os cacos de nossas emoções extraviadas. Melhor falar de gatos morrendo na China. Ou na Áustria.

 25 a 27/03