A fraqueza de Glória
E, um ano depois, acabou casando com Pedro. O casamento parecia tê-la deixado feliz. Três anos depois, dois filhos já estavam fazendo parte daquela família: Lúcia e Lucas. Contudo, começou a sussurrar nos ouvidos de Pedro um desejo que estava se agigantando dentro de si: ir-se embora para a cidade. Glória não queria consumir sua beleza e suas energias puxando enxada, plantando trigo, milho, feijão e outros grãos e cuidando de meia dúzia de porcos, uma dúzia de galinhas e uma vaca sem dotes leiteiros. Começava a não suportar a idéia de a cada ano repetir o anterior e como recompensa ter ficado apenas um ano mais velha. Começava a não suportar a idéia de, a cada ano, adiar para o seguinte suas esperanças. Aquela situação de penúria a atormentava. Não via a hora de livrar-se desse mundo de sofrimento certo e de futuro magro e duvidoso. Glória colocou na cabeça que não tinha nascido para essa vida e cada vez mais entoava sua cantiga de evadir-se desse fim de mundo de muito suor, muito trabalho e poucos resultados. Pedro já não sabia como aplacar esse fogo que devorava sua mulher e, depois de meses de sussurros e murmúrios de uma nota só, decidiu que era melhor se ir e reconquistar a paz e o sossego, mesmo que o fizesse com relutância e dúvidas. Glória argumentava, em sua faina de ir-se, que além de poder cuidar melhor das crianças, poderia ajudar no orçamento, trabalhando como costureira. Tinha aprendido com sua mãe, Josefina, a arte de coser roupas. E Pedro começaria como ajudante de pedreiro. Tinha um lugar junto com seu amigo de infância e parente distante, João, que tinha se mudado para a cidade dez anos antes e ganhava a vida de construção em construção.
Trecho extraído do conto A fraqueza de Glória
Agenor Gaspareto
Livro: Regressantes
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