Dialeto culto e
dialetos populares

   O Português Brasileiro pode ser visto hoje como formado pelo Dialeto Culto, ou Norma Culta, falado pelas classes médias e altas; e pelos Dialetos Populares, ou Normas Populares, falados pelas classes baixas, rurais e urbanas.
   Por que as diferentes classes sociais falam diferentes dialetos do Português? Porque suas condições de vida são diferentes: não compram os mesmos produtos, não vivem nos mesmos bairros, não freqüentam os mesmos lugares, não têm as mesmas crenças religiosas, não conversam com as mesmas pessoas. Enfim, têm estilos de vida diferentes. Por isso falam dialetos diferentes. Assim, uma pessoa de classe média de Itabuna, fala o mesmo dialeto de uma pessoa de classe média de Porto Alegre e um trabalhador rural de Ilhéus fala o mesmo dialeto popular, com pequenas diferenças regionais, de um caipira paulista.
   Além das diferenças nas maneiras de falar o Português, uma diferença muito maior existe na visão de mundo de cada classe. Para um falante do dialeto popular rural, por exemplo, a palavra LUA pode significar: casa de São Jorge aonde o homem nunca poderá pisar. Para um falante do dialeto culto, a palavra LUA significa: satélite natural da terra, já pisado pelo homem. Portanto, cada classe vive em mundos diferentes.
Certa vez, levei um trabalhador rural para conhecer a Universidade de Santa Cruz. Mostrei-lhe as salas de aula e perguntei-lhe o que achava. Ele respondeu-me: “Aqui dá pra botar mais de duas mil arrobas de cacau!” Só aí é que percebi que estávamos em mundos completamente diferentes.

Odilon Pinto
Livro: Usos do Português

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