Míticas, mitos e realidade

 Adylson Machado

 

Denuncia a bióloga Deborah Faria, Profa. Adjunta do Departamento de Ciências Biológicas da UESC: o cacau destruiu a Mata Atlântica. Interessante a divulgação, não a novidade. Em A Ferro e Fogo – a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira, já o dizia Warren Dean. E a pergunta de logo se impõe: quem promoveu a tragédia? Afirmamos, de imediato, que não foram os juparás.

Denúncias desse jaez exigem culpados. Não podemos tributar, por exemplo, tão somente à sanha madeireira capixaba a agressão a Mata Atlântica na Bahia. Temos, próximos a nós, grandes responsáveis – omitidos em nomes – que deveriam constar do "livro negro" da destruição.

Por que essa região não efetiva a sua catarse em relação a MA, não desmistifica os que contribuíram do alto de sua sapiência científica para a devastação do bioma reconhecido mundialmente? Ao contrário, alimenta a idéia de que o cacau protege a Mata. E esconde o nome dos que levaram à sua quase total extinção. Em nome da produtividade a cabruca foi negada como técnica de plantio pelos áulicos de voz e mando. Esquecemos, ou fazemos questão de demonstrar esquecimento, do mal que realizamos. Somos testemunha, por exemplo, da arrogância como foi tratado o internacionalmente conhecido José Lutzemberg pelo então "papa" da pesquisa ceplaqueana Paulo Alvim, durante o II Seminário Brasileiro de Direito Agrário, em Ilhéus, em 1979 (realizado graças ao empenho do ilustre e pouco lembrado Professor Raymundo Laranjeira, titular de Direito Agrário do Curso de Direito da FESPI).

Arrogância e prepotência de quem se fazia "deus" num órgão que, por conta do cacau, tinha orçamento de cerca de 100 milhões de dólares naquele ano (de DÓLARES!). Espinafrou – quando debateu – o palestrante gaúcho, que defendia a chamada "agricultura ecológica", rasgando apologia ao adubo químico, de fazer corar o mais empedernido defensor da Dow Chemical. Lutzemberg treplicou à altura e mostrou (ao "cientista" e ao público) uma lição elementar: "a árvore (e o cacaueiro o é) é um organismo como qualquer outro. Se sadio, produz suas próprias defesas. Se o viciam com a "droga" do adubo químico, cada vez mais dela dependerá. E chegará a um ponto sem retorno, dependendo de mais e mais adubo até o dia de sua morte".

O público compreendeu a mensagem gaúcha e as palmas falaram em sua defesa, calando o arrogante ceplaqueano. Hoje (coisas dessa Região) o soberbo debatedor é alvo de homenagem e condecoração como "defensor da ecologia". Mas, nosso colunismo vive, em parte, muito disso e dessa gente miticizada. E nesse viés – o da força do cacau – até mídia nacional ele encontrou, em páginas amarelas da Veja. Afinal, para não esquecer John Ford no antológico "O homem que matou o facínora", como no oeste, "quando a lenda se torna fato, nós a publicamos", ou, quando a lenda é mais famosa que a realidade, imprima-se a lenda. A verdade, nem sempre!

Na esteira a mítica de que o cacau protege a Mata Atlântica. Sublimam o que de trágico se fez à região, escondem os responsáveis pelos males causados. Esses, os mitos que ainda defendem o cacau e a Mata, como bandeirantes escravistas ao gentio escravizado.

Certo é que o avanço do cacau a partir de 1970 contribuiu para a redução da Mata Atlântica de 11 para pouco menos de 2 milhões de hectares. E deve-se reconhecer que, através dele, cacau, dos que assumiram, em seu nome, o poder regional, muito pouco fizeram para o desenvolvimento dessa Região, nos moldes que adviriam da força financeira que lhes deu o fruto de ouro.

Temos que a CEPLAC, por exemplo, após haver ultrapassado a fase de repactuadora das dívidas dos cacauicultores da época, e ocupado espaços no âmbito da pesquisa e da extensão, e de haver ampliado o território do theobroma, não produziu, através dos seus pensadores, uma cultura de conquista da cadeia produtiva. Tornou-se, e sobre isso os historiadores precisam escrever, um anteparo de interesses menores que a grandeza do cacau podia e devia produzir. E em defesa desses interesses contribuiu para a destruição da Mata Atlântica nos anos 70. Essa a realidade.

Com respaldo dos mitos, visitados por beletristas de nossa terna imprensa.

Adylson Machado - advogado, autor de Amendoeiras de Outono.

Publicado no Diário do Sul, Itabuna, 14, 15 e 16 de Maio de 2005