A Outra

O velório transcorria monótono e triste. Alcides Barreto, o Cid da Ceplac, como era conhecido, falecera aos 67 anos, naquela madrugada, de ataque cardíaco. Eram já 14h e o enterro estava marcado para as 17h. Dona Matilde, a viúva, ao lado dos quatro filhos, recebia as condolências de amigos que já chegavam para o sepultamento e iam sentando-se ou preferindo ficar conversando no passeio. No ar o cheiro típico de velas e de flores. Conversas abafadas na sala, enquanto a cidade de Itabuna continuava, na rua, com seu movimento de carros e pedestres, subindo a ladeira do Santa Cruz. Foi quando se ouviu a voz de alguém que entrava: “Eu tenho direito! Eu tenho direito também! Me deixe entrar!” Uma senhora, de uns 50 anos, entrou chorando no velório, amparada por uma mulher mais jovem, parecendo ser filha dela, e seguida por um homem também mais jovem. A filha dividia-se entre amparar a mãe e tentar convencê-la a voltar: “Vamos pra casa, mãe! Vamos voltar!” Mas a senhora, de corpo volumoso e cabelo oxigenado, avançava desesperada em direção ao morto: “Cid! Cid! Por que você deixou a gente? Por que, meu filho?” Houve surpresa e constrangimento por parte da viúva, Dona Matilde, diante da comoção daquela mulher estranha, que chorava agora encarando o corpo no caixão: “Oh Cid! Por que você deixou a gente?” Mas os filhos, que já sabiam da outra mulher do pai, levaram Dona Matilde para um canto da sala, tapeando: “É uma colega da Ceplac que trabalhava na mesma seção de pai!” A viúva sentou-se sensibilizada, enquanto, daí a pouco, tiraram a mulher da sala. Dona Matilde, que nunca soubera da Outra, comentou: “Todos gostavam dele na Ceplac!”

Odilon Pinto
Livro: Coisas da Vida

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